BILOGUE DE TEXTOS, IDÉIAS E IMAGENS.

Textos sobre temas diversos e imagens, tudo o que pode ser escrito e anotado após uma conversa com os amigos. Apesar do calor de algumas discussões, expor idéias, debater pontos de vista, porém sem inimizades. Vellker - (vellker@bol.com.br)

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Terra Blog

09.07.08

R42_Filmes da vida

categorias: R_REFLEXÕES

Roteiros da vida real...

 

Continuam os acontecimentos que mostram como a vida imita a ficção. Em certos casos não se distingue uma da outra. Um dos grandes filmes sobre embates jurídicos é “Uma Questão de Honra” onde o comandante de uma guarnição dos fuzileiros navais americanos é chamado para depor num julgamento. No quartel sob seu comando um soldado havia morrido e dois fuzileiros eram acusados da morte dele.

  

Inicialmente visto como inocente, sua situação se complica quando o oficial advogado dos dois fuzileiros que haviam agido sob as ordens dele percebe que o comandante era afinal culpado. Por suas ordens havia sido aplicado um castigo físico no soldado que ele não gostava e que resultara em sua morte. Conseguindo deixá-lo exasperado no tribunal com uma argumentação hábil, conseguiu o advogado fazer com que o comandante se descontrolasse e admitisse aos berros, que sim, havia mandado aplicarem no soldado o castigo e faria isso novamente se achasse necessário. Imediatamente recebe voz de prisão e sai do tribunal para um presídio militar. Os dois fuzileiros, ainda sob o choque do acontecido e em lágrimas são culpados também, porém em menor grau do que o comandante, que havia tentado passar toda a culpa para eles. Eles só haviam cumprido ordens. 

 

Nos dias de hoje, coisa incrivelmente parecida aconteceu no caso dos três jovens entregues pelo Tenente Vinícius Ghidetti aos traficantes do Morro da Mineira, de uma facção criminosa rival do Morro da Providência, onde tropas do Exército faziam a segurança de obras para os moradores e onde os três jovens haviam sido detidos pelo destacamento do tenente por desacato. Durante as primeiras audiências esfumaram-se as versões mais variadas de testemunhas misteriosas, que mais videntes do que testemunhas haviam dito a jornalistas, se é que disseram mesmo, que os rapazes haviam sido vendidos por 60 mil reais. Sabiam até mesmo dos detalhes do que fora dito ao telefone pelo militares na suposta conversa com os traficantes, porém nenhuma delas apareceu no tribunal. Tudo leva a crer que isso foi inventado em algum lugar. Nada disso surgiu nos depoimentos. Apareceu tão somente o trágico erro de avaliação e de conduta de um oficial, que descontrolado pelas ofensas que recebeu cometeu um erro, que de certa forma lhe custou a vida toda que ainda tem pela frente. Para o tenente aquilo era apenas um corretivo, um bom susto que os rapazes iriam passar. Para os rapazes, foi a condenação à tortura e morte, como aconteceu. E a isso foram entregues pelas ordens de quem deveria ter relevado o que aconteceu e deixado os rapazes na delegacia mais próxima. 

 

No tribunal, frente aos juízes, com os depoimentos dos seus comandados que alegaram ter cumprido ordens, que não sabiam ao certo o que acontecia, que tudo segundo diziam seria apenas um corretivo, que seguiam as ordens do tenente que havia explicado o caso ao capitão do quartel, embarcaram nos caminhões e levaram os três jovens que imploravam a eles que não fizessem isso. E assim os três foram entregues e mortos. O que todos nós vimos nos noticiários, foi o tenente Ghidetti, finalmente tendo idéia do que havia feito, aos prantos, não suportando mais a pressão de tudo. O fato de ter sabido do destino dos rapazes, de ter levado seus comandados para essa situação, de ter exposto o capitão que recomendara a soltura dos rapazes à vergonha de ser visto como culpado quando nada pesava contra ele, a dor dos familiares dos rapazes e acima de tudo, a destruição de sua carreira no Exército, por ter exposto sua corporação a essa vergonha sem perdão. Não há aqui e nem devemos ter animosidade contra esse jovem oficial, mais propriamente agora descrito como ex-oficial. Sua vida profissional, pessoal e familiar foi de tal forma atingida pelo seu gesto impensado, que fica difícil imaginar como ele viverá daqui em diante.  

 

Uma corporação como o Exército Brasileiro, que o recebeu em suas fileiras, que tem entre seus feitos as campanhas na Itália durante a Segunda Guerra Mundial, as batalhas de Castelnuovo, Montese, Monte Castelo, um exército que recebeu e zelou pelos milhares de soldados alemães que se renderam a ele, que tem na sua história o exemplo do sargento Max Wolff Filho, que arriscava a vida sob fogo inimigo para resgatar companheiros feridos.

  

De outro lado, as tropas brasileiras aceitaram a rendição de milhares de soldados alemães, que conduzidos pelos soldados brasileiros, ficaram presos sob a guarda de sentinelas brasileiros e depois foram libertados para seguirem a vida em seu país. Uma vez rendidos, até a ordem de libertação, permaneceram sob a guarda dos brasileiros de forma correta. 

  

Fora a tragédia que foi todo o acontecido, a corporação militar se vê gravemente ofendida com a atitude do jovem tenente. Junto com a extrema dor dos familiares, existe agora a honra da corporação, que dificilmente irá perdoá-lo. Resta-lhe a expulsão, mais provável, a prisão ou a vida sob uma desonra tamanha que ninguém sobreviveria a isso.


No filme, na seqüência final, ao verem seu comandante sendo preso, mas mesmo assim ainda culpados, um dos soldados, atônito, pergunta ao outro o que aconteceu, porque ainda são culpados? E o outro mais firme, mas com lágrimas nos olhos diz que eles haviam falhado em sua missão, haviam jurado na corporação que defenderiam com suas armas os mais fracos e haviam fracassado nisso.
 


Ao vermos a figura alquebrada e vencida do tenente chorando no tribunal, reconhecendo seu erro, devemos tão somente sentir que se por um lado ele paga pelo crime de ter entregue os jovens à morte, entregou-se sem perceber, para uma vida de desonra e desmerecimento frente aos seus colegas de farda e aos cidadãos comuns que chega a amargar até mesmo o senso da justiça que está sendo feita. Cada arma do Exército Nacional tem gravada nela os selos e símbolos da nação brasileira. Cada comando exige postura para com os subordinados. Cada prisioneiro exige regras de conduta por parte de quem o guarda. E foi isso tudo que foi desonrado nesse episódio. 

 

De agora em diante, para o tenente, o dia a dia não é mais uma questão de honra. Essa já foi perdida. É uma questão de sobrevivência.


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  • Postado em 14:47:42
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