| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 |
| 8 | 9 | 10 | 11 | 12 | 13 | 14 |
| 15 | 16 | 17 | 18 | 19 | 20 | 21 |
| 22 | 23 | 24 | 25 | 26 | 27 | 28 |
| 29 | 30 |
Senso de dever...
No noticiário da televisão no dia 22, vimos o estado de abandono de um pronto-socorro no Rio de Janeiro. Os médicos simplesmente não foram trabalhar e deixaram a população sem socorro. Além disso, um sistema de marcar ponto eletrônico que exigia a presença real do médico foi quebrado. Lá fora juntavam-se os doentes pedindo socorro, tão exasperados que depredaram as instalações. Cidadãos impotentes frente à situação. Pouco depois, quando chegaram soldados da Polícia Militar com um colega ferido e armados de fuzis e metralhadoras, os atendentes prontamente abriram a porta e os deixaram passar. O que os distinguia do cidadão comum? A posse e porte de armas. Nenhum atendente ou médico se fez de mal-educado e insensível na frente de fuzis M-16 e espingardas calibre 12. Chegamos num ponto aqui no Brasil em que já é lícito ao cidadão obter pela força o atendimento que o corrupto poder público lhe nega, seja em que esfera for, em socorro de si próprio, dos seus familiares e de vítimas abandonadas. De que adianta esses médicos fazerem juras solenes nas formaturas, se tem esse comportamento? É toda uma conjunção política, jurídica e social que permite essas iniqüidades contra o povo. Assim, achei correto editar novamente o texto sobre uma cachorrinha doente, que caiu junto do portão aqui de casa, teve socorro, uma breve vida e deixou lembranças para mim e lições para esses médicos.
Eu, uma cidadã...
Eu sou uma cidadã! Uma cachorrinha doente, mas com mais direitos do que os humanos dessa terra onde vivo. Essa é a minha constatação de vida. Estou hoje convicta disso. Pode um animal filosofar? Pode sim! Pode mais do que os humanos que vejo nessa sociedade de hoje, animalizados por livre e espontânea vontade em suas funções políticas e judiciárias, atacando um povo indefeso como o do Brasil em que vivo e onde um governo complacente a tudo assiste com discursos decorativos, esperando apenas que esses dois cúmplices lhe tragam a coleta diária de impostos e tão somente a isso se limita.
Injustiças, sofrimento e agonia do povo que dizem representar, nada disso interessa a esses poderes que se denominam poderes constituídos, mas que se tornaram nos últimos tempos poderes prostituídos, executivo, legislativo e judiciário, empenhados no dia a dia de ataques e saques contra o povo e a nação que deveriam defender, pois isso lhes é lucrativo política e financeiramente. Que diferença tem essa gente dos piratas antigos? Os piratas eram mais corajosos. Ao menos hasteavam a bandeira de piratas, entoavam hinos de guerra e partiam para uma luta de vida ou morte, diferente desses saqueadores modernos, que hasteiam uma bandeira chamada de nacional e entoam um hino chamado de nacional e se escondem atrás de seguranças enquanto seu povo agoniza nos hospitais públicos, saqueados pelos seus atos do que chamam cinicamente de governo. Sim, os piratas eram mais nobres. Ao menos diziam porque estavam vindo. E mais corajosos porque não se escondiam atrás de seguranças armados.
Há pouco tempo atrás caí exausta na frente da casa onde hoje estou. Que obrigação tinha seu dono de vir me socorrer? Suja, coberta de feridas, quase morrendo naquela noite, fui socorrida por esse desconhecido, que hoje me alimenta e me medica. Ao menos pude saber que existe algo além de correr de pontapés e pedradas, de revirar lixo para comer, de sofrer as agruras de uma doença que me devora o corpo, de tremer de frio em noites na rua, de correr de mordidas que me deixaram cicatrizes.
Tenho hoje meu amigo, que vejo contristado lendo as notícias do dia, onde mais denúncias e escândalos políticos e judiciários são noticiados, com os culpados impunes. Vejo-o entristecido assistindo esses telejornais que mostram os culpados de uma corrupção assustadora, antigos revolucionários de fachada, enfiados em todos os graus de saque contra sua nação, enquanto outros que nunca lutaram nem mesmo por um saco de lixo recebem milionárias indenizações dizendo-se “perseguidos do regime militar”. É o país dos coitadinhos, como disse um escritor que denunciava essas falcatruas.
Vi meu amigo acompanhando mais um telejornal ontem, mostrando mais um desfile de corruptos sorridentes dando entrevistas e fazendo seus programas políticos, mais um repórter mostrando hospitais públicos com os chamados cidadãos, homens mulheres e crianças de todas as idades abandonados na porta, amontoados nos corredores, agonizando em camas infectas, enquanto denúncias de refeições e medicamentos superfaturados são comentadas. Crianças em escolas com telhas faltando, com merenda escolar estragada jogada fora. Quantas merendas dessas terei encontrado em sacos de lixo? Não posso saber. Quantos membros desses três poderes chamados de constituídos, hoje transformados em poderes prostituídos enriqueceram às custas do sofrimento do seu próprio povo?
Sofri nas ruas pedradas, desprezo, fome, frio e doença. Ao menos eu fui apenas um animal abandonado. Triste sina mesmo é desses que são chamados de humanos, de cidadãos e cidadãs do Brasil, que trabalham sem descanso ou sofrem no desemprego, que são aprisionados no trabalho escravo, que morrem depois de dias de agonia em hospitais públicos, enquanto a televisão mostra mais um político corrupto e sorridente, falando que luta pela cidadania. E esses que sofrem assim ainda são chamados de cidadãos. Figura mais coerente com a situação era a minha como uma cachorrinha abandonada na rua.
Acompanhando a tristeza do meu amigo, vejo que os membros desses chamados três poderes são mais cruéis do que os cães que me atacavam, mais doloridos do que as pedradas que levei, muito piores do que a doença que me devora o corpo. Deveriam defender seu povo e sua nação e no entanto saqueiam, atacam e devoram seu próprio povo. Esses três poderes do Brasil onde vivo me parecem mais bem representados por um saqueador, por um canibal e por um abutre. Esses tipos estarão mais de acordo com o que eles fazem do que travestidos dessas pompas e solenidades de nauseante hipocrisia. Os lixões que eu revirava tinham mais decência do que esses palácios legislativos, judiciários e governamentais.
A doença que me atacou cobriu meu corpo de feridas, consumiu minhas forças, mal consigo levantar os olhos para meu amigo, que me olha com um tristeza enorme, mas me conduz com todo cuidado. Gostaria que esse chamado povo brasileiro pudesse conhecer algo assim. Que triste ironia a dessa gente. Dizem-lhe que vive a cidadania plena e na verdade é maltratada como um animal abandonado.
Meu amigo me leva para perto do jardim na frente da casa. O sol brilha e tira do meu corpo toda a sensação de frio, um calor suave me protege. Sinto minha vida indo, posso sentir. Sinto meu amigo afagando minha cabeça, meus olhos não podem mais enxergar. Nesses últimos tempos tive carinho, abrigo, alimento e remédios. Nesse dia ensolarado minhas dores terminam, meu sofrimento é passado e minha vida se vai, de forma digna. Morro como nunca pude viver, com dignidade. Vivi como um pobre animal, mas no fim, nos últimos momentos da minha vida tenho sorte.
Morro como uma cidadã.
Vellker - 24.09.08 - voltar para A_ÍNDICE GERAL 3
criado por Vellker
12:17:41