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Passagens e lembranças...
Foi triste a semana com a morte de dois jovens, que em meio à onda geral de egoísmo se destacaram pela solidariedade e acima de tudo pela coragem, que lhes custou a vida, mas deixaram uma marca inesquecível de sua passagem entre nós.
Exemplos assim não devem ser esquecidos, apesar dos tempos em que vivemos. Nem sempre fomos tão egoístas assim, mas uma sociedade, muitas vezes premida pelo medo da insegurança e vendo a vitória dos desonestos, acaba se fechando em si mesma.
O surfista Tony Andreo Villela, de 32 anos, morreu no dia 14, na praia do Guarujá na Baixada santista, ajudando a salvar dois outros jovens surfistas, que ignorando os avisos de mar revolto e perigoso para a natação ou surfe, se viram envolvidos pelas ondas e já perdiam as forças quando o surfista mergulhou em seu socorro. Tony, que já tinha sido salva-vidas ajudou os rapazes, mas enfrentando o mar agitado salvando duas pessoas, gradativamente perdeu as forças e foi levado pelas ondas, terminando ali sua vida. Deixa uma esposa e uma filhinha. Os surfistas aventureiros fugiram sem maiores dramas de consciência. Salvos, preferiram se resguardar para outra aventura na praia.
Na noite do dia 17, o estudante Fábio Carvalho da Silva, de 24 anos, morreu na marginal Pinheiros em São Paulo, após ajudar um motorista em dificuldades na mesma via. Parou, ajudou no reparo do carro e quando estava próximo do veículo, foi atingido por uma carreta que não pôde frear. O estudante morreu e o motorista que ele ajudou fugiu sem prestar-lhe socorro, apesar de ter visto o atropelamento. A grande tristeza do pai dele, no enterro, era saber que mesmo tendo visto o rapaz atingido, a pessoa que ele ajudou fugiu, preferindo poupar-se de qualquer problema. O motorista do caminhão foi medicado e liberado. Ao que tudo indica, foi um acidente.
Fazendo uma analogia, o que mais dói nisso tudo é estarmos nós igualmente perdidos nesse mar revolto de egoísmo, sem que tenhamos ajuda. O que entristece é estarmos perdidos nesse caminhão sem freios de cinismo, sem chance de escapar.
De certa forma, apesar da tristeza do que vivemos, sabemos que a solidariedade não morreu entre nós. São inúmeros no dia a dia os gestos, grandes e pequenos, desconhecidos e relatados de solidariedade e ajuda, quando pessoas arriscam suas vidas para ajudarem outras.
O que não podemos é deixar de meditar e pensar na vida desses dois jovens que se foram, refletir sobre a dor dos seus familiares que ficaram e acima de tudo pensar no que queremos ser um dia, num momento de necessidade. Refletir sobre o caminho que seguiram.
O ser humano pode escolher entre caminhar numa larga e luminosa estrada ou rastejar numa escura e estreita trilha de ratos. Talvez nossa vida venha até a estar em risco ao ajudarmos alguém, mas rastejar por toda a vida na trilha de culpa de uma covardia tão desprezível não parece a melhor das escolhas.
A Tony Andreo Villela e a Fábio Carvalho da Silva e também aos outros desconhecidos heróis do dia a dia, todas as nossas homenagens, respeito e agradecimento pelo exemplo de vida e coragem.
Entre os que caminham e os que rastejam, que saibamos fazer a melhor escolha.
Vellker - 21.09.08 - voltar para A_ÍNDICE GERAL 3
criado por Vellker
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