BILOGUE DE TEXTOS, IDÉIAS E IMAGENS.

Textos sobre temas diversos e imagens, tudo o que pode ser escrito e anotado após uma conversa com os amigos. Apesar do calor de algumas discussões, expor idéias, debater pontos de vista, porém sem inimizades. Vellker - (vellker@bol.com.br)

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Terra Blog

01.08.08

P60_Médicos e cobaias

categorias: P_POLÍTICA

Brasil, campos de concentração, pacientes e cobaias...

 

Quem lê alguma coisa sobre a História da 2a. Guerra Mundial, quase sempre encontra em capítulo à parte, a história de Joseph Mengele, médico, integrante da SS e que efetuou experiências em prisioneiros de campos de concentração. Baseado nas teorias raciais do nazismo, Mengele efetuava experiências que iam desde a injeção de corante azul nos olhos de crianças, testes de hipotermia, onde prisioneiros eram congelados lentamente em tanques de água gelada e suas reações anotadas até a morte e operações em adultos e crianças, usados como cobaias. Invariavelmente suas vítimas sofriam uma agonia intensa e quase sempre morriam.  


Nas proporções devidas, pode-se dizer que Joseph Mengele, se não deixou seguidores na Alemanha, de forma jamais esperada tem seus discípulos aqui no Brasil, onde uma nação inteira se vê exposta aos azares de amanhã ou depois, adoecida, entrar numa fila de espera de transplante de órgãos para depois descobrir que foi passada para trás, em favor de afilhados políticos ou de doentes que puderam pagar um razoável suborno para pularem da 32a. para a 1a. posição na fila de transplantes. Quem ficou para trás, geralmente confiando em certos médicos, ficou para sofrer uma agonia horrível até a morte. E acreditava que ia ser salvo.

 

A diferença que existe entre o médico assassino Joseph Mengele e seus seguidores do Brasil é que nos campos de concentração os prisioneiros escolhidos por ele sabiam que sofrimentos horríveis e a morte os esperavam e os pacientes dos médicos assassinos do Brasil acreditavam que seus supostos salvadores zelavam pela sua saúde e pela sua vida. Hoje, com a revelação do esquema de fraudes na fila de transplantes de fígado do Rio de Janeiro, vemos que apesar de ser um médico monstro, Joseph Mengele tinha até uma certa superioridade sobre seus discípulos do Brasil. Ele fazia o que fazia por acreditar na ideologia nazista. Os médicos denunciados no caso brasileiro faziam o que faziam por dinheiro e vantagens políticas. Sem dúvida, na classificação de monstruosidade, Mengele perde para esses médicos desmascarados aqui no Brasil. Pelo menos, quando ele chegava no campo de concentração, todos sabiam para o que ele tinha vindo. 


Só quem já viu a agonia e o sofrimento de uma pessoa que não tem mais os rins funcionando direito, que já sofreu uma grave lesão no fígado, que se arrasta sem forças por problemas no coração ou nos pulmões e que está a espera de um doador na fila de transplantes, sabe como esse crime que foi cometido aqui é terrível, o quanto é imperdoável e como deveria ser exemplarmente punido. 


Mas já sabemos o que vai acontecer aqui no Brasil com esses que foram denunciados na Operação Fura-Fila, levada a cabo pela Polícia Federal no Rio de Janeiro. Apesar do crime que cometeram, os denunciados irão para uma “cadeinha especial”, afinal, com diploma de curso superior poderão dizer que não sabiam o que estavam fazendo. Logo depois responderão a um “processinho”, pois com seus amigos políticos e dezenas de recursos que poderão interpor, nenhuma acusação chegará a lugar nenhum. Isso na parte judiciária. Na parte relativa ao Conselho de Medicina, responderão a um “inqueritozinho” e tudo se perderá em intermináveis reuniões de perguntas e respostas que também darão em nada. Amigo é para essas coisas, já dizia um cantor. 


O mais aterrador é imaginar os momentos em que doentes esperançosos receberam as visitas desses médicos, que afinal tinham que fazer exames para saber quantos ainda estavam na frente dos seus amigos políticos e quando não deles, dos seus corruptores, que mesmo estando em último lugar na fila, estavam em primeiro lugar na conta bancária. 

Enquanto isso, doentes, vendo o “bom doutor” saindo do quarto, abraçavam-se com seus familiares, todos com lágrimas nos olhos crentes que afinal seu sofrimento teria fim, agradecendo a Deus por estarem assistidos por um médico tão bom. O mesmo médico que ao chegar em sua sala, já informava a situação dos pacientes, já dizia quantos deveriam ser passados para trás e quanto isso ia custar e ponto final. 

 

Joseph Mengele fugiu no final da guerra e não respondeu por seus crimes. Morreu afogado numa praia paulista na década de 70, como pode acontecer com qualquer um. Preferiu viver no Brasil e conseguiu ocultar-se por aqui com sucesso, até sua morte. É de se acreditar que como médico tenha visitado algumas faculdades para matar saudades, dizendo-se talvez algum curioso, interessado em Medicina. E podemos acreditar também que Joseph Mengele, vendo a estrutura judiciária e dos conselhos de medicina em seus processos e inquéritos por aqui, tenha chegado à conclusão de que, se tivesse sido preso e julgado por um sistema desses, mesmo com tudo o que fez durante a guerra, teria ainda assim, direito a uma prisão especial. 

 

Quem sabe se não foi por isso que preferiu viver aqui até o fim da vida.


Matérias a verificar: 
Médicos presos por fraudar fila de transplantes 
Médicos pedem habeas corpus 


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