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Um soldado americano...

Terminada a campanha presidencial americana com a vitória de Obama, John Mccain o candidato do Partido Republicano provavelmente deixará a política não tanto pela decepção de sua não eleição mas pela boa trajetória que já fez em seu país, desde os tempos em que voltou de um campo de prisioneiros ao lutar na Guerra do Vietnã. Tendo retornado em em 1973 depois de cinco anos como prisioneiro dos norte-vietnamitas, Mccain que durante sua prisão rejeitou a proposta de ser libertado para propaganda política e suportou três anos de confinamento em solitárias com espancamentos que lhe custaram a saúde e a carreira de aviador naval, iniciou uma bem sucedida carreira política após seu retorno aos EUA. 
Alinhado com os expoentes do Partido Republicano, sempre convervador e pouco afeito a mudanças gerais tanto no seu país como no predomínio americano no mundo, Mccain apesar disso ficou conhecido por ser um político que muitas vezes questionava as diretrizes do seu partido, achando que deviam procurar primeiro o que fosse melhor para seu país sendo a visão partidária republicana apenas uma auxiliar desse esforço e não uma determinante.
Supreendeu muitos dos analistas políticos que viam nele um contradição: uma espécie de republicano conservador que se não dava muita força para mudanças ao mesmo tempo ansiava por questionar e mudar algumas das visões tradicionais do seu partido em relação a tudo dizendo que ser conservador não era necessariamente a mesma coisa que ser petrificado.
Indicado para concorrer pelos republicanos contra Barack Obama, Mccain se viu às voltas com uma ingrata carga que o tempo foi colocando contra ele por obra dos próprios atos do Partido Republicano: a guerra do Iraque que se arrasta trazendo a cada ano mais perdas, mais custos e mais sofrimento sem perspectivas de solução, a decepção dos americanos com seu partido, a crise financeira que voltou boa parte deles para o candidato democrata e as atitudes de Sarah Palin, indicada como vice e conservadora radical assumida, que inviabilizava com seus discursos qualquer idéia de mudança, que era o que os eleitores mais queriam. Mesmo com suas atitudes mais desajeitadas do que folclóricas, Sarah Palin se tornou uma âncora para John Mccain. 
Com o resultado da eleição, apesar de não conseguir esconder sua tristeza, foi exemplar e de extrema elegância a atitude de John Mccain quando ao discursar e falar de Obama, assim que seus eleitores começaram a vaiar ele pediu calma a todos e respeito ao outro candidato, que havia perdido a avó alguns dias antes e acima de tudo, que tendo sido ele o mais votado pelos americanos Obama era agora seu presidente e ele se sentia no dever de ajudá-lo a governar a América da melhor forma possível, no que conclamou seus eleitores a fazerem isso também. Não podia ser outra a resposta que não aplausos.
Apesar de seu modo de ver as coisas alinhado a um partido conservador, John Mccain deixou uma marca de valor individual e assim como as balas da artilharia anti-aérea inimiga foram fatais para seu avião na guerra do Vietnã, da mesma forma o foram para sua campanha as antipatias que George Bush despertou com seu malfadado governo, o desastre econômico ocorrido no governo republicano e as gafes de Sarah Palin.

Mas John Mccain deixa lembranças dignas de um veterano de guerra.
Vellker - 12.11.08 - voltar para A_ÍNDICE GERAL 3
A América nos surpreende...
No dia 4 de novembro de 2008 foi eleito o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Seria uma frase num livro de ficção política, mas não é. Barack Hussein Obama nesse dia tornou-se o 44o. presidente norte-americano e sua eleição confirma a capacidade dos americanos em se refazerem como povo e nação. Apesar das dificuldades imensas que eles tem pela frente, sem dúvida poucos acontecimentos na História alcançaram tal magnitude.
Uma das coisas que permitem uma comparação incrível é o carisma de Obama em tudo semelhante ao de John Kennedy, que eleito em 1961 protagonizou um governo que fez história até seu assassinato em 1963. O modo de falar, a esperança que despertaram na alma do povo americano, a idéia de mudanças políticas e econômicas, a solução de grandes tensões militares externas, sobre tudo isso Kennedy tinha idéias que pôs em prática e sobre tudo isso agora Obama se expressou da mesma forma e o mundo espera pelo que ele vai fazer a partir de janeiro de 2009. Permanece em tudo semelhante nos dois o carisma e a forma como despertaram esperanças no povo americano.
A América com 13% de sua população composta por negros, evidencia que a vitória de Obama veio em grande parte do voto dos brancos, que vivendo outras épocas preferiram dar valor às idéias que ele pregou, se emocionaram com o sentimento esperança que ele passou e sem medo decidiram por tê-lo como presidente. O que mais fica visível é que grandes políticos assim, sempre dotados de um carisma que dê ao eleitor a sensação de ser pessoalmente compreendido em seus receios e esperanças pela sua nação, reagem coletivamente dizendo sim às suas propostas. Foi uma imagem emocionante a que correu o mundo, de eleitores de todas as raças na América, unidos e ouvindo o discurso da vitória com lágrimas nos olhos.
Sempre hostilizando a imprensa, pela primeira vez em mais de cem anos de existência o grupo racista da Ku-Klux-Klan, que sempre perseguiu os negros com violência na América, sentiu-se tão deslocado que seu dirigente distribuiu uma nota aos jornais dizendo que Obama tem um parte de sangue branco. A Klan que sempre perseguiu de negros a imigrantes com extrema ferocidade, sendo até mesmo força política importante nos estados americanos do sul, hoje se vê reduzida a esse bizarro comentário pressentindo seus dias finais.
Alguns analistas consideram a eleição de Obama comparável com a queda do muro de Berlim em 1989. Seria melhor dizer que sua indicação para concorrer pelo Partido Democrata, com a concordância dos principais chefes políticos empolgados com suas idéias e sua bem-sucedida trajetória na campanha é que podem ser comparadas à queda do muro. Com sua aceitação pelas lideranças políticas e pela população, aí sim é que um muro invisível que existia na relação racial norte-americana começou a cair.
Em termos de magnitude política a eleição de Obama pela América só encontra paralelo na queda da União Soviética em 1991, quando uma nação inteira depois de ter experimentado a liberdade que nunca havia tido e que Mikhayl Gorbatchev lhe trouxera, decidiu apoiar em peso o pronunciamento político liderado por Bóris Yeltsin. O momento culminante do movimento foi quando, emocionados pelas palavras de Yeltsin que discursava do alto de um tanque, os soldados Exército russo decidiram ficar do lado do povo russo e deixaram de obedecer ao antigo comando soviético..
Guardadas as devidas proporções dos acontecimentos em cada nação, o sentimento de mudança que impulsionou os delegados do Partido Democrata ao nomearem Obama como seu candidato à presidência e a forma como os eleitores se agregaram em torno da sua mensagem de mudanças e esperança é um movimento nacional idêntico em sentimento, só diferente na transição pacífica e na região do mundo. Mas comprova que qualquer povo responde ao político que tenha carisma e algo a dizer. Resta agora esperar seu trabalho na presidência mas não só Obama sempre deixou claro como os americanos também sabem que o trabalho será longo, contínuo e muitas vezes penoso, mas não impossível, assim como ele sempre disse em sua campanha que “Sim, nós podemos”.
Mas essa é uma história americana.
Vellker - 10.11.08 - voltar para A_ÍNDICE GERAL 3
A América se recria...
A eleição do 44o. presidente norte-americano, Barack Hussein Obama é tão importante que poucos paralelos ela tem na história do mundo. Acontecimentos marcantes como este, quando Obama foi aclamado pela multidão nos EUA e quando seu inegável carisma emocionou a todos, fazem da História um livro comovente de ser lido. Um acontecimento tão marcante que é difícil discorrer sobre ele em poucas palavras.
De longa data vem a luta dos negros nos EUA para o reconhecimento dos seus direitos civis pela população branca historicamente marcada pelo racismo ferrenho, mas que com o correr do tempo, na formação do caráter do cidadão americano foi aos poucos se diluindo. Pelo menos quase a metade votou em seu oponente e mantém ainda a idéia da América branca, onde todas as outras raças são apenas coadjuvantes mas mesmo esses americanos do velho estilo já não tem mais certeza disso.
Nesse primeiro texto, o que deve ser lembrado é que a luta dos negros americanos atravessou tempos difíceis, como quase todos conhecem das histórias de estados como o Alabama e o Texas, os mais conhecidos em suas manifestações de violência de segregação racial. Com milhares de almas desconhecidas, que lutaram bravamente contra isso, alguns nomes até mesmo no cenário internacional ajudaram a moldar no cidadão norte-americano de hoje, a aceitação de Obama como seu presidente. Ironicamente, os filmes de Hollywood ajudaram a tornar alguns desses lutadores conhecidos no mundo todo.
Um dos personagens que se destacou na luta pelos direitos civis foi Malcom X, que ao longo de sua trajetória mostrou-se um dos mais bravos lutadores pelos direitos civis dos negros, ao mesmo tempo em que mostrava que era sim possível que um negro americano se defendesse como ele dizia, “Por quaisquer meios necessários”. No final da sua vida, mudou suas idéias e passou a seguir o caminho do pacifismo para esse objetivo. Em 1965 terminou baleado por dissidentes de suas idéias.
Na mesma época, o inesquecível Martin Luther King, que sempre fazia a defesa do povo negro em suas manifestações e inabalável em suas convicções tinha também esse dom de chamar a atenção das pessoas enfrentando a discriminação, as prisões, pondo em risco a própria vida defendendo suas idéias. Em um memorável discurso que já faz parte da história americana, Martin Luther King emocionou milhões de pessoas ao dizer “Eu tenho um sonho”. Mesmo sabendo que sua vida estava ameaçada continuou até cair baleado em Memphis, 1968. Seu carisma era tanto que sua história é lembrada até hoje.
Na África do Sul dois outros homens deixaram marcas na História, um deles vivo até hoje. Na década de 70 Lutando contra o regime de apartheid mantido pela minoria branca que detinha o poder político e bélico, Steve Biko, ativista político sul-africano aprisionado em 1977 e espancado e morto numa prisão. Enquanto isso, Nelson Mandela, outro ativista sul-africano desde 1962 cumpria pena de prisão perpétua, até que foi libertado em 1990 pela pressão internacional.
Aos poucos, na mente não só dos milhões de pessoas que viram os filmes com suas histórias mas também na do americano comum, foi-se formando a consciência de que a luta dos negros pelos direitos civis nos EUA era mais do que justa. Aos poucos, ao longo dos anos o povo americano foi se convencendo de que a América branca e segregada já era uma coisa do passado. Esta mudança ainda está para acontecer em milhões de corações e mentes, mas em metade dessa América de hoje, já aconteceu.

Mais do que a vitória de um povo sobrepujando condições de opressão, a vitória de Barack Obama representa acima de tudo a vitória de um carisma pessoal, de idéias inovadoras e acima de tudo de um personagem que sempre destacou em trabalhos de solidariedade social. Mais do que nunca, o povo americano queria estar certo de poder contar com essa visão.
A América se recria, mas em boa parte graças à luta decidida desses homens que no passado, até mesmo dando suas vidas, ajudaram a construir esse novo caminho.
Vellker – 07.11.08 - voltar para A_ÍNDICE GERAL 3
Dia de meditar...
Estive ontem no cemitério na passagem do dia de Finados. É meu costume fazer apenas um pequeno ramo de flores silvestres e levar para deixar no túmulo da família. Enquanto estive lá ontem, não pude deixar de fazer uma prece silenciosa pelos que tem sido mortos por esse Brasil afora. Não só as pessoas tem morrido, como as esperanças dos que ficam morrem a cada dia.
Se era um dia de oração, era também um dia de meditação profunda e uma calma mas viva sensação de revolta veio com essa meditação. Olhando o movimento no cemitério pude perceber mais claramente o quanto é desprezível esse sistema de poder político que temos, o quanto é nocivo e o quanto cada um de nós deve meditar sobre isso, para que aos poucos se cristalize de forma coletiva essa determinação de que esse sistema de injustiças tem que ser derrubado.
Aos poucos fui notando as pessoas de todas as raças. Brancos, orientais, negros, pessoas que formam essa grande família humana e que haverão de um dia formar essa nova humanidade, essa raça morena, uma família que não vê diferenças entre si e que transmita ao mundo sentimentos assim. Ao mesmo tempo, vendo os túmulos eu via o quanto a formação dessa humanidade está ameaçada pelo sistema de injustiças sociais e políticas, que ao custo da esperança e dos sonhos de milhões de pessoas traz o lucro de uns poucos. Vivemos hoje sob o jugo de uma verdadeira pirataria política. Para nos livrarmos disso, realmente haveremos de combater esses piratas pois não entendem outra linguagem que não a da força.
Vi as pessoas idosas com seus netos colocando flores em túmulos antigos, grande parte deles era de europeus ou japoneses que vieram para o Brasil há muito tempo em busca de uma vida melhor. Aqui realizaram seus sonhos e fecharam os olhos para sempre. E me lembrei das notícias que dão conta de que quase meio milhão de brasileiros procuram através de sua ascendência conseguir a nacionalidade de outros países, como espanhóis, italianos e portugueses. Porque fariam isto?
Pelo fato de que neles assim como em seus antepassados existe o desejo de uma vida melhor e eles já não vêem esperanças disso no Brasil de hoje. Posso entender seus sentimentos e não devo condená-los. Antes devo lamentar que tenhamos chegado a esse ponto. Antes devo ver que os descendentes de seus antigos capatazes, dos grandes latifundiários que escravizaram seus bisavós e que exploraram seus avós foram bem sucedidos em manter esse sistema de injustiça, de exploração e negação do ser humano.
Tenho um parente mais novo que já conseguiu o passaporte português já que nossos avós eram portugueses. Pessoalmente já pensei em viver um tempo em outros países, conhecer seu sistema político, judiciário, ver uma outra cultura e voltar. Mas abandonar o Brasil, que vejo como o nascedouro de uma outra civilização, de um outro sentimento de humanidade, não me passa pelo pensamento. Mas entendo meu parente. Entendo esses milhares de brasileiros que fazem o caminho contrário de seus antepassados. A esperança assim como deu alento aos sonhos dos que aqui vieram há tanto tempo também anima seus sonhos de uma vida melhor para eles e para seus filhos.
Reflito assim que teremos um dia de lutar pelo melhor, literalmente, para salvar o Brasil. Em nossa conturbada história já tivemos revoluções, se tivermos outra que seja. Por que não? Por que não o melhor? Dor e aflição já temos espalhadas por esse Brasil, afinal a dor, a aflição e injustiças contra milhões de brasileiros são o meio de vida dessa classe política que hoje infelicita nossa vida.
O sistema político de hoje é o descendente dos antigos latifundiários, dos traficantes de escravos e dos que escreviam leis para favorecer seus crimes. Seus filhos modernos são os políticos que hoje exploram e assassinam o povo brasileiro. Teria sido melhor se na semelhança do personagem do livro “Memória Póstumas de Brás Cubas” esses grandes assassinos de vidas e esperanças ao invés de descendentes tivessem deixado apenas um testamento onde dissessem “...Não tive descendentes. Não leguei a ninguém a miséria da minha existência...”. Mas infelizmente tiveram. Legaram toda a miséria de sua existência aos políticos de hoje.
Enfim esse foi apenas um livro de Machado de Assis. O grande livro da nascente civilização brasileira, esse nós brasileiros teremos que escrever com nossas próprias palavras.
Vellker – 03.11.08 – voltar para A_ÍNDICE GERAL 3