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Diamantes são para sempre...outras coisas também...
O viajante ia fazendo sua peregrinação até que num dia de sol chegou ao templo do oráculo. Apesar de não haver ninguém no templo, rezava a lenda que tudo o que fosse perguntado com sentimento seria respondido.
O viajante sentou-se, deixou sua mente viajar nas brumas do espírito e perguntou:
- Mestre, existe neste mundo alguma coisa que dure mais do que o granito?
Um espírito com a aparência de um velho sábio surgiu no altar e com a voz calma e ao mesmo tempo imponente respondeu:
- Sim...É o diamante.
O viajante pensou mais um pouco e perguntou novamente:
- E existe algo que dure mais do que o diamante?
E o oráculo novamente respondeu:
- Sim...É o amor entre um homem e uma mulher.
E em sua busca pela sabedoria, mais uma vez o viajante perguntou:
- E diga-me Mestre...Porventura existe algo neste mundo que dure mais do que o amor entre um homem e uma mulher?
O espírito com a voz calma, como a dos grandes iluminados respondeu:
- Sim...Existe...
Admirado, o peregrino perguntou novamente:
- E o que existe neste mundo Mestre, que dure mais do que o amor entre um homem e uma mulher?
E a voz do espírito veio rouca, revelando o segredo:
- É a pensão alimentícia...
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O Vigilante 4 - Final
Lá no palanque, com os rojões já diminuindo, Paulão retomou o discurso:
- Povo querido da minha cidade de... - e parou, de súbito, com a expressão do rosto congelada. Os rojões tinham parado. O povo olhou. Atrás de Paulão, Zequinha se limpava de alguma coisa que tinham jogado nele, parecia tinta.
Paulão caiu para trás de boca aberta. O deputado Antonio olhou para o filho caído e então viu a mancha de sangue crescendo embaixo de sua cabeça. Na testa, a mancha vermelha começava a crescer também. O povo tinha parado de mastigar a pipoca na boca. Naquele instante todos ficaram paralisados.
Ouviram um tipo de zunido rápido e o deputado caiu de lado, como se fosse atingido por um soco. Atrás do palanque, Zé Firmino, cabo eleitoral do partido dos dois se preparava para soltar mais rojões assim que falassem. Estranhou o silêncio no palanque e o murmúrio do povo, mas ficou com o cigarro na boca, esperando a ordem. No palanque, Zequinha, de boca aberta, sem conseguir emitir um fio de voz que fosse não entendia o que estava acontecendo. Dona Glória, a mãe dele olhou bem para pai e filho, caídos um em cima do outro e começou a tremer ao ver que seu decote estava coberto do sangue dos dois.
O juiz ainda deu um passo para a frente e enquanto olhava os dois corpos no chão, caiu para trás e aí Dona Maria desatou num berreiro ao se ver respingada de sangue, misturado com os excelentíssimos miolos do juiz.
Por uma fração de segundo Zequinha ainda pensou em pular no meio do povo. Em meio ao berreiro das duas mulheres, ouviu-se outro zunido e seu pescoço estourou numa enorme mancha vermelha e ele, ex-candidato, agora defunto fresco, caiu na frente das duas mulheres, agora viúvas frescas, respingadas de sangue e aos gritos.
Os convidados e partidários no palanque desataram a correr e a pular no meio do povo e Aurélio, o editor do jornal local se sentou boquiaberto, com o jornal do dia dobrado sobre sua cabeça, como se fosse um capacete, enquanto tremia de medo. Achando que alguma briga tivesse acontecido no palanque, Zé Firmino achou que era melhor soltar os rojões para abafar as palavras de qualquer baixaria que viessem a falar lá em cima. Macaco velho de comício, sabia das coisas. Decidiu subir no palanque para ajudar o patrão.
Enquanto o povo corria para todos os lados achando que era um tiroteio geral, Zé Firmino se viu no meio de uma cena que nunca tinha visto. As mulheres gritando e os quatro mortos caídos no palanque e no meio de tudo aquilo se misturavam o sangue e miolos de excelências e eminências finadas com o sangue e miolos de ex-candidatos a excelências. Percebeu o que tinha acontecido e imaginou como o sujeito podia ter atirado do meio do povo e ter escapado. Atrás da igreja matriz, Lourenço, o policial que tinha sido escalado para fazer presença no comício despediu-se com um beijo rápido da namorada que estivera amassando lá e vistoso, com o uniforme ajeitado, avançou praça adentro para ver o que acontecia. O berreiro das duas mulheres lhe lembrava a sirene da viatura. Que loucura.
No alto do prédio que ficava distante uns 400 mts. e de frente para a praça, Márcio ainda pode ver boa parte da cena pela luneta do fuzil que usara para matar os quatro. Um velho prédio de 4 andares, que tinha sido um dos marcos do "pogresso" da cidade, quando inaugurado por um prefeito chamado Antonio Mendes uns 15 anos antes. Sabia que tinha pouco tempo, mas ainda deu uma boa olhada e pelos retículos da luneta enquadrou o Zé Firmino e viu sua expressão de espanto. Mas não ia atirar mais. Só olhava. Parecia-lhe inacreditável que o M-21, um fuzil semi-automático, com luneta e silenciador pudesse fazer tudo aquilo. Simples, rápido e eficaz. Recolheu as cápsulas das balas disparadas que estavam no chão. Desatarrachou o silenciador ainda quente, dobrou a coronha retrátil e a arma coube certinho na mala que o velho armeiro Juan lhe preparara no Paraguai. Desceu sem chamar a atenção, ainda com o uniforme de vigilante. Não tinha sido problema para ele entrar no prédio. Enquanto preparava tudo tinha tirado uma cópia da chave. Como vigilante tinha acesso a quase todos os prédios. Saiu sem ser notado, enquanto o alvoroço todo se concentrava na praça e nos arredores dela.
Lembrou-se das vezes em que estivera de guarda em prédios públicos, no Fórum, na Santa Casa, onde pudera perceber os acertos e conchavos feitos pelo deputado e pelo juiz, agora defuntos e esfriando no palanque da praça. Lá, Dona Maria tinha parado de gritar e estava estática. Dona Glória tinha desmaiado nos braços de Zé Firmino e o policial Lourenço olhava toda aquela confusão abismado. Aurélio, ainda sentado e tremendo com o jornal dobrado na cabeça, atreveu-se a abrir os olhos e ao ver o policial deitou-se exausto. Afinal estava salvo. Levantou-se rápido ao sentir as costas molhadas pelo eminente sangue do finado juiz.
Luiz, o advogado candidato também, avisado do tumulto, chegara na praça junto com Marina e via toda a cena com ela. Quem teria feito aquilo? Conhecia o caráter dos que tinham morrido. Não tinha o que lamentar. Ele e Marina se entreolharam e perceberam que ele estava praticamente eleito. Não havia mais nenhum oponente.
Enquanto caminhava pela avenida, Márcio lembrou-se da noite em que estivera no mesmo lugar com Telminha. Relembrou o acidente, os dois tentando suborná-lo e o pensamento que lhe passara pela mente como uma raio: usar o dinheiro deles para vingar Telminha. Não só Telminha, mas ele, a cidade e todos que tinham sido espoliados por aqueles dois políticos, corruptos da velha escola política brasileira. No fim a cidade estava mais limpa do que nunca. Ouviu o uivo da sirene da viatura de polícia da cidade vizinha, já que a viatura da delegacia local já estava há uns dois meses parada por falta de conserto. Uma polícia mais bem equipada era uma das promessas de campanha de Paulão.
Rememorou os dias seguintes em que voltara do Paraguai com arma preparada por Juan, um armeiro experiente. Uma versão compacta, cano mais curto, mas preciso para as distâncias que havia falado. Lembrou dos dias em que aprendera a regular a luneta, a marcar a distância e o alcance. O treino com as balas que Juan também havia incluído no pacote. Um treino sem barulho, silenciador feito por Juan como oferta da casa. Quando chegou o dia do comício, ele estava mais do que pronto para o que se decidira a fazer.
Márcio chegou em casa como sempre, sem fazer barulho, tomou um café com leite, pensou em tudo o que havia acontecido e no outro dia veria as notícias no jornalzinho da cidade e faria cara de incrédulo quando soubesse do acontecido no barzinho da praça.
Deitou-se e no escuro lembrou-se mais uma vez da imagem de Telminha. Sua figura suave, seu sorriso meigo. No outro dia, ao raiar do sol levaria flores para seu túmulo.
Nessa noite, Márcio dormiu o sono dos justos.
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O Vigilante 3
Márcio fez uma curta viagem até Ciudad Del Leste. Tinha conseguido uma semana de folga para descontar nas férias. Encontrou seus amigos e pediu algumas informações. Precisava de uma mercadoria arriscada de levar pela fronteira e de um fornecedor de confiança. Logo estava a caminho do sujeito que ia lhe vender algumas coisas. Caminhava tranqüilo, roupas simples, tênis surrado, uma sacola plástica transparente na mão. Dentro uma bola de futebol e um ursinho de pelúcia. Era a imagem do papai afim de levar uns presentinhos para seus filhos, fora as compras de sempre. Nada que chamasse a atenção, nem de policiais brasileiros por lá, nem de policiais paraguaios, que viam nele mais um sacoleiro a comprar bugigangas. Chegou até o lugar que lhe fora indicado. Na porta da lojinha, Carlito, o filho do homem que ia lhe fazer uma venda especial já o esperava. Como os amigos o tinham recomendado foi bem recebido e levado para os fundos da loja. Juan Cortez, o velho negociante conversou com ele. Márcio explicou seus planos e Juan simpatizou com ele, mesmo porque a recomendação era de amigos conhecidos dele também. E lhe mostrou a mercadoria que achava mais adequada, para que ele verificasse por si mesmo. Márcio se deu por satisfeito. Juan falou o preço: 4 mil dólares, 2 mil adiantados. Teria apenas que fazer umas adaptações e ele deveria voltar dentro de 3 dias. O preço incluía a entrega do material em Foz do Iguaçú, num hotelzinho de confiança dele. Carlito faria a entrega, pois sabia como passar pela fronteira em certos lugares e em certas horas, sem problemas. Claro, uma certa parte do dinheiro ficava na mão das pessoas certas nos lugares certos e nas horas certas. Márcio de despediu de Juan, perguntou se poderia voltar outras vezes, no que o vendedor se colocou à disposição. Cumprimentou-o, despediram-se e ele voltou para o lado brasileiro. Esperou Carlito no lugar combinado. Lá pelas 10 da noite ele chegou com o material em mãos, embalado e guardado dentro de uma mala velha e marcada pelo tempo, nada que chamasse a atenção. Deu o dinheiro a Carlito que contou e avisou que se quisesse um novo negócio, era só avisar. Despediu-se, desejou-lhe boa sorte e saiu. Márcio fechou a conta no hotel, saiu e enquanto caminhava, lembrou de Telminha, caída, os dois lhe propondo o negócio e sentiu-se estranho. Mas tinha sido melhor assim. Pouco depois pensou nela novamente, viva, conversando com ele naquela noite. Embarcou no ônibus do trajeto e horário que Carlito havia indicado. Mas não dormiu um instante que fosse. Ao chegar em sua cidade nem acreditou que tivesse sido tão fácil. Bons amigos sempre ajudam mesmo.
Quase um mês se passou depois disso. A campanha dos dois, Paulão e Zequinha, continuava a todo vapor. Pelas pesquisas iriam ganhar mesmo. O adversário deles, Luiz, um advogado jovem e idealista lamentava a falta de recursos. Pior ainda, o deputado Antonio, pai de Paulão sabia arranjar recursos no maior mistério. E o pai de Zequinha, o juiz Neto sabia acertar as coisas no fórum para que seu filho tivesse portas abertas na cidade. Parecia que só ideais não eram suficientes, mas que fazer? Pelo menos tinha sido um bom aprendizado. Consolou-se lendo seu discurso de agradecimento aos amigos e colaboradores, que redigia em segredo, sozinho em seu comitê de campanha, já fechado naquela noite de sexta-feira. No sábado de manhã, antes de ir para o trabalho Márcio passou no cemitério e deixou flores no túmulo de Telminha. Olhou a foto dela na lápide e se lembrou de seu sorriso. Foi para o seu turno de cabeça baixa. Naquela noite haveria festa na praça. Comício dos dois, carrinhos de pipoca e doces, rojões e muita gente vendo o espetáculo todo.
Lá pelas 8 da noite de sábado, a praça estava cheia, o palanque enfeitado e os partidários dos dois davam vivas e vivas e mantinham a população animada com distribuição de "santinhos" e folhinhas dos dois candidatos. Começou o comício com o deputado Antonio falando da renovação da política na cidade. Atrás dele estavam Paulão e Zequinha e o juiz Neto. Do lado deles, Dona Maria, mãe de Paulão e Dona Glória, mãe de Zequinha sorriam alegres. Afinal sabiam que a política ia mudar para que tudo ficasse como sempre tinha sido.
Bem na primeira fila na frente do palanque estava Márcio. Olhando sem nenhum entusiasmo, de mãos nos bolsos, carregava uma tristeza no olhar, lembrando de Telminha, de tudo o que tinha acontecido. Paulão viu ele ali e cutucou Zequinha, que ao vê-lo empalideceu. Meio gaguejando falou no ouvido de Paulão:
- Será...? Será que ele vai aprontar uma cena aqui no meio do povo? Vai ser o fim cara, o fim...- Paulão olhou para Zequinha e viu o suor começar a brotar em sua testa. Ele acalmou o amigo e foi direto:
- Calma. Esse aí já faz parte da nossa política. Quem sabe a gente não arruma um carguinho prá ele na prefeitura. Só estamos começando. Fica frio.
Zequinha relaxou com aquelas palavras e voltou a ensaiar na imaginação o discurso que faria logo depois de Paulão. Ao olhar para baixo novamente viu que Márcio tinha ido embora. Sorriu e pensou que afinal todo homem tem mesmo o seu preço. Se não se vende é porque não ofereceram o suficiente. Logo após os efusivos cumprimentos do deputado Antonio, começou o discurso do juiz Neto enquanto o povo mastigava mais pipocas e comia algodão doce. O pessoal do comitê de campanha estava a postos atrás do palanque, prontos para soltarem os rojões assim que fosse anunciado o discurso do candidato Paulão. Enquanto isso o juiz falava acerca da importância da democracia participativa e do sagrado conceito da cidadania.Mais aplausos. Terminara o discurso e o deputado Antonio apresentou seu filho, gritando a toda voz:
- Aqui está a nova força política da nossa gloriosa cidade - e deu o sinal para que soltassem os rojões. Paulão acenou para o povo que aplaudia e mais olhava para os fogos do que para o candidato. Zequinha atrás dele repassou mais uma vez o discurso na cabeça e ficou olhando a cena toda. Paulão acenava para todos de braços levantados sorrindo e seu pai aplaudia também. Sorridente Paulão se aproximou do microfone. Falou a primeira frase:
- Boa noite, querido povo da minha cidade. - e acenou novamente. Os partidários de Paulão, no meio do povo, aplaudiram.
Longe dalí, em sua casa, Luiz, o candidato que já sentia o sabor da derrota, ouvia os rojões e relia o texto de sua carta de despedida e agradecimento a todos. Junto de Marina, sua secretária e colaboradora, meio envergonhado deu-lhe a carta para ler e perguntou se ela achava que agradecia bem a todos e se despedia de forma decente, sem parecer que estava fugindo. Ela gostou. Ficara boa, sim, até comovente. Disse que estaria com ele na próxima campanha, que ele não desistisse nunca. Contou da admiração que todos tinham pelo seu idealismo. Ele não estaria sozinho.
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O vigilante 2
Paulão estava mais recomposto pelo susto, pela situação. Zequinha ainda se balançava um pouco. Paulão pensou rápido. Pensou no começo da carreira política, em tudo o que a vida tinha de bom para ele ainda. Olhou Zequinha, meio bobão como sempre fora desde o ginásio, quando os dois viviam juntos. Só ele podia dar jeito na situação. Olhou para Márcio com o farolete na mão e disparou:
- Fala aí cara! Quanto você quer para ficar quieto, de bico calado, ser o cara que não viu nada e não estava aqui nem nunca esteve nem nunca viu a gente aqui?
Márcio apertou os dedos da mão formando um punho que quebraria qualquer coisa e se preparou para dar um soco de nocautear Paulão. Ele repetiu com a voz mais calma:
- Fala aí cara. A gente dá um jeito. A vida não é fácil prá ninguém, mas damos um jeito. Aí cara, olha...50 mil e não se fala mais nisso, você some, não viu nada, não sabe de nada. Nesse fim de mundo aqui só nós vimos alguma coisa. Fala cara...
Márcio sentia o sangue latejando no pescoço. Ficou quieto, contraindo os músculos das mãos imaginando o murro que ia acertar primeiro em Paulão e depois em Zequinha. Com o silêncio de Márcio, Paulão voltou à carga:
- Fala aí cara! Quieto hein? Você sabe fazer negócio. 100 mil e está encerrado o caso. Sumimos daqui.
Um pensamento cruzou a mente de Márcio como um raio. O semblante de Márcio se descontraiu. Ele subitamente afrouxou a mão. Descontraiu-se um pouco mais, olhou para o corpo de Telminha caído. Voltou a olhar para Paulão e viu o sorriso começando a se formar em seu rosto:
- Sabe tirar vantagem hein seu desgraçado? Temos um trato? - Zequinha tentou falar e Paulão mandou que se calasse.
Márcio sabia que eles estavam enroscados. Se fugissem a denúncia daria em nada pela influência dos pais deles. Mas a eleição iria ser perdida, com o adversário explorando o caso. Mas para eles, a liberdade e a boa vida iam continuar mesmo. E provavelmente iriam tentar uma nova candidatura depois. Márcio foi seco:
- Quero o dinheiro amanhã! Grana viva, nada de cheque, quero o dinheiro aqui na minha mão. No máximo de tarde. Vou com vocês no banco. E se precisar me defendo! Aliás, se precisar, me defendo agora! - E colocou a mão num volume na cintura. Paulão tremeu imaginando a arma disparando em seu rosto. Zequinha percebeu-se de repente sóbrio pensando uma cena parecida. Conseguiu soltar a língua:
- Calma aí meu, somos da paz. Paga esse cara, droga, temos que dar um jeito. Tem o caixa de campanha. Saco, caixa dois é prá isso mesmo. É bom a gente ir aprendendo. Meu pai dá um jeito lá no fórum, eu sei.
- O meu também Zequinha. O provedor da Santa Casa deve tudo prá ele mesmo, sempre dá um jeito. Não tem problema. Depois a gente explica prá eles. Saco, sabia que essa farra ia dar rolo, estava pressentindo.
- E se o caso for parar na delegacia, vamos ser indiciados. Sempre vão explorar isso em qualquer eleição. Estamos na mão dele. O jeito é pagar e ficar quieto. É isso aí. - Paulão mais rosnou do que falou.
- Agora é leite derramado. Ou melhor sangue. Se cair uma gota que seja na nossa campanha estamos ferrados. Mas o amigo aí parece de confiança. E se o Luiz souber duma palha disso, o bicho vai pegar. Pagamos e calamos a boca. Todos nós. A morta não fala mesmo - Zequinha se surpreendeu de ser incisivo. Devia ser a primeira vez que deixava de ser bobão para ser mandão. Imaginou-se discursando na câmara municipal com a mesma desenvoltura, depois de empossado.
- Então? - perguntou Paulão, ainda olhando a mão de Márcio no volume na cintura. Pensou que talvez o revólver tivesse 6 balas mesmo. Era morte certa. Melhor não tentar saltar nele como tinha pensado. O cara não estava com voz de moleque medroso.
- Que horas na parte da manhã? - Márcio perguntou ríspido. Paulão pediu tempo:
- Faz assim, passa no comitê da nossa campanha ao meio-dia. Dinheiro de manhã não tem jeito. Cidade pequena cara, vou ter que falar com o gerente sem despertar suspeitas, coisa do tipo negócio de última hora, sei lá...
- Vocês dois vão comigo no banco. E lembra...se eu tiver que me defender, me defendo mesmo cara. Qualquer coisa errada e todo mundo fica sabendo da história!
Paulão acalmou Márcio. Tinham um trato. Então era bom irem embora. Ali era um fim de mundo, mas antes que aparecesse alguém...
Tudo combinado, Márcio saiu caminhando pela estradinha. Olhou o corpo de Telminha mais uma vez. Teve vontade de voltar, mas era melhor deixar assim. Não ia estragar tudo agora. Ouviu o barulho do motor do carro e Paulão saiu em marcha lenta, faróis baixos. Assim que pegou a estradinha, acelerou e sumiu de vista. Márcio chegou em casa, tomou um café com leite e foi dormir. Silencioso como sempre para não acordar os pais, deitou-se e relembrou tudo que acontecera: o acidente, os dois meio bêbados, o negócio combinado. Reviu o corpo de Telminha caído. Os olhos que ele fechara ao ver que estava morta e o rosto tranqüilo, como se dormisse, apenas com o fio de sangue no canto dos lábios. Ainda pensou que devia ter se declarado a ela quando vivia. Talvez nada disso tivesse acontecido. Foi fechando os olhos e pegou no sono. Acordou com o despertador que havia regulado para as dez da manhã. Beijou a mãe e o pai como sempre fazia, tomou um banho e foi para a cidade receber o dinheiro prometido.
Passou na banca de jornais para ler as manchetes dos jornais da capital e ouviu um homem comentando com o jornaleiro sobre o corpo da enfermeira encontrado de manhã e da polícia sem pista alguma do que poderia ter acontecido. No comitê de campanha dos dois esperou um pouco. Viu os cartazes, as frases do tipo "Sangue jovem para a política", "Renovação na câmara" e coisas do tipo. Recebeu um "santinho" de um auxiliar com a foto de Paulão sorridente na frente de um grupo de crianças do grupo escolar. Em outra folhinha Zequinha aparecia na frente do asilo de velhinhos com as mãos nos ombros de dois deles. Deixou as folhinhas de lado e esperou os dois. Paulão entrou quase na hora combinada junto com Zequinha. Sorridentes, cumprimentaram Márcio como se fosse algum amigo disposto a colaborar no comitê e saíram. No carro começaram a dizer:
- Olha cara, a grana está esperando por nós. A estória é que você vai nos fazer um servicinho na campanha e tem que receber grana viva. O gerente achou pouco seguro, mas se o cliente quer.... É só ficar de boca fechada e damos a grana na sua mão. - Mário se limitou a acenar com a cabeça. Na agência, depois das apresentações, o caixa contou o dinheiro na frente deles, colocou num envelope pardo e fez o habitual sorriso de cortesia e despedida enquanto chamava o próximo da fila. Márcio saiu com Paulão e Zequinha. Enquanto entravam no carro, Paulão falou:
- Olha lá hein cara...boca fechada, estamos numa boa, sua vida aí e a nossa aqui...
- Sem problemas. É caso encerrado. E se precisar me defendo. - E Márcio colocou a mão no volume da cintura. Paulão deu partida e saiu acelerado. Chegando em casa Márcio tirou o radinho de pilha da cintura, que dava o volume que levara os dois a pensarem que era um revólver. Guardou o dinheiro bem protegido dentro do isolante da geladeira velha, que há tempos estava lá no quintal. Sem porta, enferrujada e meio tombada, nenhum tipo que aqueles dois inventassem de mandar lá procuraria naquele lugar. Vedou bem a junta e foi se deitar. Começando a pegar no sono pensou nas compras que poderia fazer do outro lado da fronteira no Paraguai. Ainda bem que tinha uns velhos amigos por lá. Era só pegar o ônibus e em uma hora estaria em Ciudad Del Leste.
Dormiu e sonhou com Telminha, caminhando do seu lado de mãos dadas com ele.
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O Vigilante 1
Márcio vinha cansado de mais um turno de trabalho. Pelo menos pudera sair mais cedo e ia conseguir dormir mais tempo. Vida de vigilante. Turno em vários edifícios da cidade, de acordo com o que a firma mandasse. "Multi-Seg, guardando seu patrimônio e sua vida com dedicação". Era o ditado da firma bordado em sua jaqueta. Nada mau. Saiu do trecho mais iluminado da comprida avenida e pegou um atalho pela esburacada estrada vicinal. Assim chegava em casa uns 20 minutos mais cedo.
Ouviu passos e olhou para trás e viu Telminha, a enfermeira do hospital da cidade. Se cumprimentaram e ela pediu:
-Márcio, posso ir com você? A gente ganha tempo e sozinha tenho medo.
- Claro menina, vamos lá. Que foi hoje? Plantão fora de hora? Sempre sai mais cedo - perguntou ele.
- Nada, era para ter saído mesmo, mas cobri a falta de uma amiga, saí agora pouco. - respondeu ela com cara de sono.
- Ah, comigo foi o contrário. O João foi lá mais cedo, para trocarmos de turno no fim de semana.
Morando no mesmo bairro da periferia, se conheciam há um bom tempo. Márcio gostava dela, mas não tinha coragem de dizer, mas um dia, ia ter sim - ia pensando pelo caminho. O problema era a timidez.
Entraram numa trilha num terreno baldio. Telminha ia certa de que Márcio ia estar ali para qualquer problema. Senão teria ido pela avenida mesmo, bem iluminada. Quando alcançaram a estradinha, foram conversando, cuidando para não tropeçarem, aproveitando a luz do luar. Bem longe os faróis de um carro brilharam.
Márcio notou os movimentos do carro. Vinha veloz. Notou o balanço de um lado para outro. Quando estava mais próximo falou para Telminha sair de lado na estrada. Foi junto dela. Perceberam que o motorista dirigia de forma estranha. Saíram da estrada e os dois viram o carro descontrolado sair da estrada e invadir o terreno gramado em que estavam. Vendo os faróis saltando na frente deles, Márcio puxou Telminha pela manga da blusa e ao mesmo tempo em que ouvia o tecido se rasgando na sua mão, viu o carro passar a meio metro dele e jogar Telminha para o alto e parar pouco adiante. Sem acreditar no que acontecia, acendeu a lanterna e se abaixou para prestar socorro. Telminha, sua amiga de tanto tempo estava caída, sangue saindo pelo canto da boca, olhos abertos parados. Colocou a mão em seu pescoço e percebeu que ela estava morta.
Ouviu o barulho da porta do carro batendo e viu os dois vultos caminhando até ele. Jogou a luz do farolete neles e viu Paulão e Zequinha, dois conhecidos filhinhos de papai da cidade.
- Como ela está - perguntou Paulão, apavorado - Zequinha do seu lado se balançava meio caindo. Paulão não estava diferente. Foi aí que Márcio percebeu que os dois estavam bêbados. Então era isso. Deviam estar voltando de mais alguma noite de farra, tinham bebido e tinha acontecido o acidente.
- Está morta, seus desgraçados, vocês mataram a menina - Márcio agarrou Paulão pelos colarinhos e Zequinha tentou balbuciar alguma coisa. Márcio o derrubou com um safanão. Paulão se soltou e sentou-se no chão do lado do amigo que se levantava.
- Estamos ferrados cara, era só o que faltava. O Luiz vai cair em cima de nós, diabo dos infernos - praguejou Paulão.
- Se vai meu, vai fazer um artigo no jornalzinho e estamos acabados. esquece a nossa campanha, eleição, tudo. E meu pai? Vai me liquidar - Zequinha falou meio atordoado. Dessa vez foi Paulão que falou com voz pastosa:
- Bem na reta final, caraca - e se deitou no chão.
Foi aí que Márcio percebeu tudo. O carro parado, o motor desligado. Paulão tinha tido o cuidado de apagar os faróis. Zequinha se levantou. Nenhum deles tinha prestado a mínima atenção ao que tinha acontecido com Telminha. Era isso. Eram candidatos na cidade, Paulão a prefeito e Zequinha a vereador. Um começo de carreira política, nos moldes da tradicional política brasileira carregada de vícios. Porquê iriam prestar atenção a Telminha? Estavam preocupados com o escândalo, só isso. Márcio pensou no tempo que levaria para ir até o telefone mais próximo ou conseguir encontrar alguém para chamar a polícia. Os dois poderiam fugir enquanto isso. E depois, como provar que tinham sido eles?
Paulão era filho do deputado Antonio Mendes, bem influente. Zequinha era filho do Dr. Neto, juiz de Direito, que mandava no fórum da cidade. Lógico que não ia acontecer nada. Coisas da vida...e da política...
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