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Final de temporada...
Sábado, 22 de junho de 2006. Morre Gianfrancesco Guarnieri. Ator, autor de teatro. Participou de novelas, filmes, peças. Em 1958, aos 21 anos escreveu a peça de teatro "Eles Não Usam Black-Tie" que em 1981 se tornou filme, dirigido por Leon Hirzman. Por esse texto ganhou um prêmio de autor revelação. A peça fala por si mesma e explica o prêmio e a carreira de autor e ator desse homem.
Nascido na Itália e tendo chegado no Brasil aos 3 anos, Gianfrancesco cresceu vendo a vida do cidadão brasileiro e com uma rara sensibilidade, desde pequeno via as coisas que considerava injustas e pensava e repensava isso. Na juventude decidiu se tornar militante esquerdista e dar aos seus textos e personagens a voz que os esquecidos de então não tinham. Hoje são chamados de excluídos. Neste ano tivemos uma lágrima nos olhos pela morte do comediante Bussunda. Mal nos recuperamos dessa perda e vem a morte de Raul Cortez. Nem tivemos tempo de pensar no quanto perdemos e Gianfrancesco Guarnieri morre. A Morte por vezes encena uma peça...onde ela leva primeiro os melhores.
Ficamos nós, como no teatro de arena, em volta de um palco vazio...o palco da vida. Cada um de nós será ator também. É essa a peça que estamos encenando. Primeiro espectadores e depois, seja como for nesse cenário, atores...A peça que encenamos nesse teatro da vida se chama "Final de Temporada". É o nome que mais corresponde ao que acontece. Por esses dias um grande amigo meu, biloguista, cronista e cartunista, Dark Night Hunter, me perguntou numa carta, sobre o desaparecimento desses grandes atores, enquanto banalidades como "Malhação" crescem como mato em um quintal abandonado. Me perguntou se seria o final da dramaturgia.
Não é. É apenas isso que a vida nos mostra ao fazer com que sejamos atores dessa peça memorável..."Final de Temporada"...Gianfrancesco era um ator engajado. Enfrentou anos difíceis na época da repressão no ciclo militar e conquistou até mesmo a admiração de pessoas com ideologia conservadora, mas que reconheciam a força que dava para a figura dos esquecidos na trama social. Foi com amargura que viu revelado o oportunismo político de muitos que se diziam reformadores. Mas mesmo assim persistiu em seu trabalho.
Agora que enfrentamos uma ditadura executiva, legislativa e judiciária, pintada pela grande mídia como estado de direito e cidadania, teremos que fazer como ele, nos engajar numa contestação assim, em idéias e atos.
Hoje vivemos isso...esse final de temporada nas atitudes, na ética, na coragem política de lutar pelo melhor. Final de temporada das grandes atuações desses reformadores sociais pelo seu desaparecimento. Os oportunistas que ficaram são como mato em quintal abandonado...Mas ficamos nós. Com lágrimas nos olhos pelas perdas que tivemos, pelas desilusões, pela confiança traída.
Seremos agora atores também. Observação atenta da vida, do dia a dia...daí vem um pequeno texto, um pequeno gesto, que se tornarão grandes textos e grandes gestos e quando percebermos estaremos no meio do palco em que eles estiveram. De qualquer forma em qualquer lugar que estejamos, tudo é o teatro da vida. Observar isso, repor essas perdas com nossa atuação já é participar da melhor forma dessa peça.
Reviver o humor de Bussunda, a atuação vigorosa de Raul Cortez, os textos vibrantes de Gianfrancesco Guarnieri. Então vou poder dizer ao meu amigo Dark que não foi o fim da dramaturgia. Foi apenas um final de temporada. Novos atores tomam o lugar dos que se foram.
Esses novos atores nós mesmos seremos. É só querer.
Vellker - 24.07.06 - voltar para A_ÍNDICE GERAL 1
Raul Cortez. O Brasil, seus tipos e seu intérprete...
Raul Cortez, um ator...Era desses que se fosse chamado para interpretar algum personagem às pressas, por uma emergência qualquer, dava uma olhada rápida no roteiro e tornava-se o próprio no palco, frente às câmeras de televisão ou de cinema. Na platéia do teatro, do cinema ou na sala em casa, víamos sua atuação, até nos esquecendo do ator em si, para vermos o personagem.
Tipos que trazia para a vida na nossa frente: bicheiro, prisioneiro, perseguidor, oprimido, opressor, imigrante, fazendeiro, amante, homem comum, rei de um conto de Shakespeare, homem comum novamente, desses como você na platéia...
Amargo ano esse que estamos vivendo, pela perda de um ator assim. Desse que agora interpreta uma peça de um só ato...onde seu papel é desaparecer e aí mais do que nunca ele se torna visível. Mais do que nunca ele desperta nossas mais profundas emoções. Essa é a grande última interpretação de um grande ator: a de ficar para sempre no palco das nossas lembranças. As cortinas da vida foram baixadas, mas em nossos sentimentos ele continua em cena.
Ator que era capaz de improvisar um personagem numa rápida olhada no roteiro. Agora, somos obrigados a fazer como o mestre Raul e como atores principiantes temos que interpretar um personagem, após uma rápida olhada no roteiro que a vida nos deu assim...
Cada um de nós tem que ser o personagem que não esquece esse ator que passou no palco, no cinema, na televisão...Não vai ser difícil.
Difícil mesmo vai ser olhar o roteiro com os olhos marejados...
Vellker - 19.07.06 - voltar para A_ÍNDICE GERAL 1
Além de tudo, até mesmo das lágrimas...
Bussunda entrevistado no programa de Serginho Groisman
Chega hoje a notícia da morte de Bussunda, figura que há anos estávamos acostumados a ver nas noites terça-feira no Programa Casseta e Planeta.Com sua figura irreverente e sempre tranqüila, preenchia nossos corações com humor, alegria, sátiras deliciosas e nos deixava com um sorrivo no rosto, no coração e suas brincadeiras eram assunto do dia seguinte.
Fomos pegos de surprêsa pela sua morte. Seus colegas com muita dificuldade conseguirão superar a tristeza no próximo programa onde irão lhe prestar uma justa homenagem. Foi um dos atores principais do programa, onde conseguiu nos passar a visão risonha dos momentos políticos mais difíceis do Brasil, fazendo com que ao lado da nossa revolta existisse também o riso.
Fica tudo além da torcida pelo Brasil na Copa, fica tudo além da política, fica tudo além da vida.
Bussunda e Maria Paula no Casseta e Planeta
O que fica é a lição de que os grandes comediantes, que nos fazem chorar de risos e alegria, são mesmo grandes quando ao partirem para sempre, mesmo que jamais quisessem isso, nos fazem chorar novamente.
Vellker - 17.06.06 - voltar para A_ÍNDICE GERAL 1
Lady Di...Uma realeza que não termina
No ano de 1997 o mundo perdia uma das figuras mais brilhantes que já passaram pela realeza britânica: Lady Di ou Princesa Diana. Apesar dos contos de fadas sempre terem um final feliz para o casal real, esse não foi o caso. E mesmo afrontando as conveniências da corte, Diana decidiu ser feliz por si mesma, dispensando a realeza oficial.
Com seu modo de ser, com suas atitudes pelo mundo afora, conseguiu criar uma outra corte: a da sua beleza, charme, elegância e acima de tudo com sua presença em campanhas de solidariedade pelo mundo afora.
Em pouco tempo tinha milhões de súditos pelo mundo todo, dessa corte de beleza e presença humana que criou.
A vida real porém segue um caminho diferente daquela dos contos de fadas. E em um dia o mundo viu-se órfão dessa princesa, que se tornara rainha de uma corte inesquecível.
Relembrar uma mulher assim é ser um pouco seu súdito novamente. Sermos súditos da beleza, da elegância de presença e de atitudes. Está aí uma corte onde vale a pena viver.
Vellker - 17.06.06 - voltar para A_ÍNDICE GERAL 1
Getúlio Vargas, o homem que atirava (2) - Final
Nas eleições de 1950 o povo chamou Getúlio de volta ao poder.
Em 1950, com mais de 3 milhões de votos, na época metade dos eleitores, estava de volta à presidência. Nesse período, já com a siderurgia que implantara, crescendo sempre, Getúlio criou em 1951 a Petrobrás, o outro pilar básico da industrialização nacional.
Hoje, em 2006 comemoramos a auto-suficiência em petróleo. Com a evolução do cenário político e com os problemas criados por seu irmão Benjamin Vargas e o chefe de sua guarda pessoal Gregório Fortunato, envolvido no atentado da Rua Toneleros, que resultou na morte do major Rubens Vaz, Getúlio viu-se preso a um processo de desmoralização presidido por homens como Carlos Lacerda e os líderes da UDN e seus aliados na imprensa, que desejavam se vingar de Getúlio desde 1932, francamente favoráveis à sujeição do Brasil ao poder financeiro estrangeiro, uma espécie de PSDB da década de 50.
Manchete do dia 23.08.1954
Perdendo apoio nos meios políticos, Getúlio porém não recuou. Vendo a progressão dos acontecimentos dentro do palácio do Catete, ainda disse uma frase que veio a cumprir:
"Daqui só saio morto. Estou muito velho para ser desmoralizado e já não tenho razões para temer a morte".
Percebia a situação em que ficara pela atitude de seus defensores, porém jamais se escudou atrás da tão conhecida afirmação dos dias de hoje de não saber de nada. Mas ele percebia também que ali que não contava mais com o apoio do poder militar e de forma alguma sua índole aceitaria um longo e desgastante processo de humilhação, movido por seus inimigos políticos. Em 24 de agosto de 1954 Getúlio suicida-se com um tiro no peito, deixando para os brasileiros sua carta testamento.
Carro do jornal "O Globo" tombado pela multidão
Ao tomar conhecimento do acontecido, carregada de fúria, a população depredou jornais anti-getulistas como o jornal "O Globo" e colocou praticamente sob cerco conhecidos políticos contrários a ele. Alguns tiveram que sair do Brasil por algum tempo, temendo por sua segurança pessoal. Terminava assim a vida de Getúlio Vargas, gaúcho da fronteira, homem de brios, equilibrista político, pela força ditador, pelo voto popular presidente e agora figura histórica do Brasil.
O que a trajetória deste homem nos deixa como lição é a notável coragem física, onde sempre que os acontecimentos rumavam para um confronto final, jamais se escondeu atrás de artimanhas jurídicas ou no primeiro buraco que achasse, coisa tão ao gosto dos políticos de hoje. Aliás, sem isso, os políticos atuais seriam incapazes de sobreviver. Personagem polêmico, querido por uns e odiado por outros, Getúlio traz nos dias de hoje a idéia de que políticos assim, capazes de enfrentarem o perigo real e imediato, de sujeitarem uma nação toda ao seu pensamento em seu longo processo de estruturação em bases nacionais ao invés de entregá-la a grupos aventureiros e vendilhões do patrimônio nacional, capazes de se sacrificarem ao invés de se sujeitarem a um processo diário de vergonhas, são mais do que necessários para o reerguimento da nação, mesmo para sua sobrevivência nesses dias conturbados, onde autoridades acovardadas e distantes do povo e que legislam contra ele em favor de grandes interesses estrangeiros, tornaram-se a praga dos dias de hoje.
Autoridades que levaram a cabo um longo e bem sucedido plano de seqüestro do poder político e jurídico e com isso da vida da nação para pior. Autoridades que só vivem de conchavos e negociatas em gabinetes estrangeiros. Autoridades que em momentos de emergência da vida nacional apresentam-se gaguejando frente aos seus cidadãos.
Getúlio Vargas não. Ele era o homem que atirava.
Links a verificar:
Revolução Paulista de 1932
Levante Integralista de 1938
Construção da Usina de Volta Redonda
Criação da Petrobrás
Algumas das concepções de Getúlio Vargas
O suicídio de Getúlio Vargas
Páginas do artigo: (1) (2) - Final
Vellker - 10.06.06 - voltar para A_ÍNDICE GERAL 1