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Marcados pelo passado...
Terminaram as eleições do 2o. turno para prefeito em várias capitais e em São Paulo o resultado das urnas mostrou que o passado marca os candidatos. Gilberto Kassab hoje com o aval dos eleitores ostenta uma grata popularidade e governará com o apoio da população. Aqui neste espaço sempre procurei condenar os partidos políticos, que de uma forma ou de outra estão apenas interessados na própria sobrevivência. O povo é apenas um detalhe, uma aborrecida e inescapável obrigação que eles tem que cumprir. Mas valores individuais existem e muitas vezes se sobrepõem a siglas partidárias.
Fica uma interessante constatação de que o passado dos candidatos marca a memória dos eleitores de forma indelével, ao contrário dos que dizem que o povo tem memória curta. Nestas eleições, logo no primeiro turno um político como Paulo Maluf foi descartado logo no início. Boa parte do eleitorado tem memória suficiente para lembrar que ele protagonizou o apoio explícito a Celso Pitta, um dos piores prefeitos que São Paulo já teve e dizia anos atrás que se Pitta não fosse um bom prefeito, que não votassem mais nele. O eleitorado seguiu suas palavras e não votou mais nele. Maluf ainda teve uma sobrevida pelos redutos eleitorais que formou ao longo do tempo em que foi atuante em São Paulo. Agora tudo é passado.
Geraldo Alckmin, um candidato que sabidamente não empolga a população, se destacando apenas no papel de vice que assumiu o governo depois da morte de Mário Covas, foi a escolha equivocada do PSDB, uma escolha que antes de equivocada obedeceu a ditames do partido. Por pior que fosse o candidato, se fosse do partido, seria esse que escolheriam. Já rejeitado nas urnas na última eleição presidencial, uma clara advertência do eleitor, foi ainda assim sancionado pelo partido de José Serra, que de forma desprezível abandonou Gilberto Kassab, preferindo antes zelar pela sigla do partido e não pelo valor individual. O candidato Alckmin, depois de rejeitado no embate contra Lula e com um discurso frio e artificial, foi mais uma vez retirado do cenário político pelo eleitor.
Quanto a Marta Suplicy, que ficou sem máscara nestas eleições, pôde o eleitorado dar o troco da verdadeira e para sempre inesquecível ofensa que recebeu dela, no episódio do aeroporto paulista, quando em meio ao apagão aéreo, uma Marta Suplicy risonha, escarnecia do sofrimento do paulistano e do brasileiro em geral, dizendo para ele relaxar e gozar no meio daquela confusão, enquanto que ela dispunha de transporte privativo. Isso marcou essa mulher para sempre. Pior ainda foi a tática de só apresentar em sua propaganda política ataques pessoais contra a figura política e pessoal de Gilberto Kassab. Foi aí que Marta Suplicy mostrou toda sua intolerância e preconceitos, que sempre conseguiu disfarçar ao longo desses anos. Essa marca jamais sairá da figura política chamada Marta Suplicy.
Gilberto Kassab apareceu como figura solitária, abandonado por José Serra logo no início, mal colocado nas pesquisas. Mas ao longo do período eleitoral conseguiu mostrar aos paulistanos que tinha propostas de governo e de administração e para confirmar isto mostrou em sua propaganda as realizações que já fez. Convenceu e conquistou a simpatia crescente do eleitor. Conseguiu melhorar a cidade de São Paulo, conseguiu se tornar a alternativa certa do eleitorado e ao mesmo tempo focou seu discurso em realizações. A cidade de São Paulo é pelo seu próprio tamanho e pela forma desordenada como cresceu, um caos que até mesmo prefeitos de outros países quando a visitam perguntam como alguém consegue administrar tudo isto. Pois Gilberto Kassab, com mudanças de impacto algumas vezes e com uma administração onde sempre se fez presente, conseguiu ter um bom desempenho nisso, o que realmente convenceu o paulistano a votar nele. Mereceu a vitória que teve, trilhando no início um caminho solitário, mas nesse caminho aos poucos convenceu o eleitor a caminhar com ele. Depois de certo tempo eram os outros candidatos que caminhavam sozinhos.
Merece ser notada também a atitude de Gilberto Kassab desmentindo de forma incisiva para a imprensa as insinuações de que José Serra o teria apoiado desde o começo. Ele disse de forma clara que só teve as simpatias do governador depois que estava com a vitória garantida e que qualquer outra versão seria um desrespeito ao seus eleitores. Assim Kassab resguardou a posição do vitorioso que aceita um aperto de mão de quem não lhe deu a devida importância antes, longe das atitudes de muitos políticos que a todos aceitam e a todos abraçam. Ele deixou claro que por seus méritos alcançou essa posição e dela não abre mão.
Se Gilberto Kassab conseguir se desvencilhar do inconveniente que muitas vezes uma sigla partidária se torna e por seus próprios méritos como administrador conquistar a confiança e respeito crescentes do eleitorado paulistano como fez até agora, poderá sem dúvida no final do seu novo mandato ter a chance de concorrer a governador do estado de São Paulo.
Se assim for, terá então feito o caminho inverso de muitos políticos apagados que são apenas coadjuvantes de suas siglas de partido. Nisso, hoje Gilberto Kassab tem a seu favor a respeitável proeza de ser ele a estrela política, enquanto que a sua sigla partidária é apenas sua coadjuvante.
E nos seus discursos ele demonstrou que não esqueceu que boa parte desse brilho vem do respeito que devotou a seus eleitores com um bom trabalho.
Vellker – 28.10.08 - voltar para A_ÍNDICE GERAL 3
Marta mostra como é...
Aproxima-se o final do 2o. turno das eleições pela prefeitura da cidade de São Paulo e uma grata surpresa se faz sentir. Marta Suplicy já antevendo a derrota, deixa cair a máscara de lutadora pelos pobres e oprimidos e mostra sua verdadeira face de mulher elitista e tão apegada a expedientes políticos e intolerância social tanto quanto aqueles políticos da velha escola que sempre disse combater.
Caiu a máscara de mulher moderna e progressista que ela sempre usou. A mulher que dava conselhos no antigo programa da rede Globo, o TV Mulher na década de 80 e que viu ali uma oportunidade e tanto para iniciar seu arrivismo político sem ter que sair da zona nobre da cidade de São Paulo, em dias recentes mostrou o quanto despreza os mais desfavorecidos.
Sem dúvida que o partido do atual prefeito Gilberto Kassab, que se originou do antigo PFL e era propriedade total do falecido Antonio Carlos Magalhães, agrega em seu meio políticos conservadores e pouco afeitos a mudanças, mas que pelo menos fazem o favor de dizer a que vem. No entanto isso não deixa de lado os méritos do atual prefeito, que numa gestão por vezes conturbada mas eficiente ganhou a aprovação do povo paulistano exatamente porque soube fazer um equilíbrio de tudo isso e ao mesmo tempo ser um bom administrador.
Para Marta resta como saldo negativo para ela e positivo para a população por ver uma arrivista política ser desmascarada, a derrota pessoal dela e do voto de colher hoje mantido em grande parte pelo PT, pelo expediente da ajuda social, que sem dúvida é correta de uma nação para seus cidadãos menos favorecidos, visando reergue-los de uma situação de pobreza, mas não para mantê-los reféns de uma sigla política. Se votar em mim, tem a colher de comida na boca pelos próximos 4 anos, se não votar fica sem ajuda por 4 anos. Na verdade é esse o novo tipo de voto forçado que o PT implantou. Antes era o voto de cabresto, agora é o voto de colher. Não votou no PT, não tem colher de comida. Tempos modernos.
O que o povo paulistano não esquece de forma alguma é a zombaria explícita que Marta Suplicy fez dele e também dos cidadãos brasileiros durante o apagão aéreo, quando já com o cargo de ministra do Turismo na mão, ao ser entrevistada no aeroporto, na frente das famílias perdidas sem transporte, rindo de todos declarou em alto e bom som que todos deveriam se esquecer dos problemas e depois relaxar e gozar. Dito isto, embarcou em seu jatinho do governo para Brasília.
Durante a época em que foi prefeita, ao visitar um dos bairros pobres de São Paulo muito atingido pelas inundações, de salto alto mal pode caminhar pelas ruas cobertas de lama e enquanto os moradores retiravam seus móveis perdidos e tentavam arrumar suas casas, Marta Suplicy, vestida com um elegante e caro vestido de grife, provocou tamanha revolta entre eles que logo ela e seus seguranças tiveram que sair de lá, atingidos por lama jogada pelos moradores e sob vaias. Essa era a mulher que ainda no poder já mostrava sua verdadeira forma de ser.
Nos dias recentes mostraram também seus seguranças e partidários o quanto são "tolerantes e acessíveis". O repórter do programa CQC da rede Bandeirantes, ao aproximar-se de Marta para uma entrevista foi cercado e hostilizado pelos petistas com cotoveladas e empurrões. Por aí se vê o quanto lucra a cidade de São Paulo deixando de lado e em definitivo a ex prefeita.
Marta Suplicy nesses últimos acontecimentos da campanha, deixou claro o quanto não usar uma máscara lhe dói por ter que mostrar seu verdadeiro rosto. No último debate questionada por Gilberto Kassab sobre a propaganda que veiculou, procurando atingir a vida pessoal do seu oponente, Marta usou a desculpa de que de nada sabia ou seja, admitiu que é só uma marionete do partido, pior ainda dos seus subordinados. Para coroar a semana de declarações desastradas ou melhor, que mostram como ela é, ao ser barrada na visita de obras da prefeitura de Kassab, Marta Suplicy disse com o desprezo característico de classes mais atrasadas que “...colocaram uns peões ai para eu não entrar...”. Não usou o temo trabalhadores, operários ou funcionários. Usou o pejorativo “peões”.
Marta Suplicy revela assim o que conseguiu com êxito esconder durante todo esse tempo: preconceito, arrogância, desprezo e pouco caso pelo povo que não faça parte do seu círculo de amigos, aliás longe do povo propriamente dito. Povo para ela e seu séquito de bajuladores pagos com cargos é só uma desagradável e inevitável obrigação da política, algo assim como uma mansão onde os cargos e mordomias são como os quartos de luxo e o povo é como a área de serviço, fazer o quê?. É só lembrar de como na ganância pelo poder, depois de anos a fio chamando Paulo Maluf de nefasto, passou a elogiá-lo nas eleições de 2004, tentando conseguir os votos dos eleitores dele. Perdeu para José Serra. Mas disfarçou tudo isso durante todo esse tempo porque isso era vital para seu arrivismo político. Porém como disse Abraham Lincoln uma vez, você pode enganar as pessoas por muito tempo, mas não pelo tempo todo.
Eu diria que depois de certo tempo, nem com óleo de peroba, nem com botox.
Vellker – 24.10.08 – voltar para A_ÍNDICE GRAL 3
Bicicleta e salto alto é isso aí...
Por esses dias um insólito fenômeno abalou a disputa eleitoral pela prefeitura da cidade de São Paulo. Caiu de forma estrondosa a máscara que Marta Suplicy sempre usou de defensora dos pobres e das minorias, desde os tempos em que começou a ganhar notoriedade apresentando-se dessa forma como a conselheira que anunciava novos tempos no extinto programa TV Mulher da rede Globo na década de 80.
Hoje revelada em uma espécie de arrivista política que se pinta com tintas de modernidade e tolerância, Marta cometeu um pecado imperdoável e uma grosseria inacreditável ao tentar colar de forma sutil em seu adversário Gilberto Kassab, um solteirão dos mais tranqüilos, a suspeita de que sua solteirice talvez seja coisa das mais suspeitas e condenáveis.
Em uma recente propaganda eleitoral veiculada pelo PT e já retirada do ar tamanho foi o desastre de sua veiculação, torna-se impossível acreditar que Marta não soubesse que o anúncio ia ser transmitido. Falando de Kassab uma voz perguntava se o eleitor o conhecia, se ele era casado, se ele tinha filhos e deixava a interrogação maldosa no ar. No dia seguinte até mesmo os petistas mais ferrenhos condenavam a propaganda que fora feita e que realmente é das mais desprezíveis. Tendo agregado em volta dela os movimentos de gays e lésbicas e sempre tendo dado apoio à parada gay de São Paulo, Marta ao deixar esse anúncio ir ao ar revelou-se enfim uma intolerante, digamos assim, enrustida, que sempre aproveitou a simpatia do eleitorado gay para ficar em vantagem. É o mínimo que se pode pensar.
Se Marta admitir que seu próprio comitê de campanha faz as propagandas que mais lhe interessam e ela só fica sabendo por último, admite que sendo incapaz de controlar até seus marqueteiros será apenas uma marionete na prefeitura da maior cidade do país. Se admitir que sabia do anúncio e o deixou ser veiculado fica na triste situação de admitir que sim, sempre foi preconceituosa e se fez de amiga dos grupos e minorias que sempre fingiu defender porque isso lhe era vantajoso. Parece que para Marta não restam muitas saídas. Ou admite em público que sempre usou uma máscara ou concorda que é só um mero boneco de cordas do seu próprio partido.
Em todo caso fica para o eleitor a impressão de após aprovar a administração de Gilberto Kassab, dando-lhe maioria no primeiro turno pois ele conseguiu melhorar muitas coisas na conturbada cidade de São Paulo, tornando melhor a vida para o eleitor que hoje o recoloca no cargo com seu voto, a opção mais correta é mesmo recolocar o atual prefeito no cargo. O eleitor demonstra que não lhe interessa a vida pessoal de Gilberto Kassab, que além disso é discreta e mesmo tendo errado ao brigar com um cidadão numa inauguração, Kassab depois em público manifestou seu arrependimento pelo acontecido e procurou apaziguar os ânimos. Enquanto isso o eleitor mostra que lhe interessa um administrador de fato e de verdade.
Na seqüência de tudo, Marta Suplicy recebe do eleitorado uma decidida condenação com sua porcentagem de votos caindo dia a dia. O que os eleitores paulistanos de nascença e os que adotaram São Paulo até hoje se lembram com raiva é da sorridente Marta Suplicy, que com o ministério do Turismo na mão riu e escarneceu da situação dos milhares de brasileiros que sofriam com a crise do transporte aéreo que deixou marcas até hoje. Enquanto passageiros e funcionários das empresas se confrontavam, aviões sumiam e famílias passavam dias nos aeroportos, Marta Suplicy em vergonhosa atitude tripudiou dos passageiros ao dizer sorridente que o brasileiro devia esquecer daqueles problemas porque depois ele chegaria numa praia e ai, segundo as suas palavras da época: Relaxa e goza porque você vai esquecer dos transtornos. E dizia isso sorrindo, pronta para embarcar num jatinho privativo do governo federal. Hoje, seguindo o conselho da própria Marta, o eleitorado prefere esquecer dela na intenção de voto.
Tropeçando no salto alto que sempre usou em sua campanha e com a máscara quebrada no chão, Marta Suplicy caiu e feio da bicicleta na rua das eleições e com certeza ao ler as últimas pesquisas de intenções de voto, já pensando nas explicações que vai ter que dar no próximo debate na televisão, ela nem relaxa e nem goza.
Silencioso em seu canto e agradecido ao eleitor, Gilberto Kassab mais do que nunca tem as ruas de São Paulo abertas para ele, na certeza de que ao estender a mão para o eleitor, é correspondido com sinceridade e sem preconceitos.
Vellker – 15.10.08 – voltar para A_ÍNDICE GERAL 3
Humanos e irmãos de sangue...
Peço desculpas aos amigos leitores que vez ou outra passam por aqui para uma rápida leitura. Depois de alguns dias com problemas de navegação, quando finalmente descobri que minha linha estava literalmente na situação do “balança mas não cai” refiz os contatos.
Não sem antes ter visto pelas ruas ao sair para comprar material de conserto, antigos oponentes de políticos que agora irão disputar o segundo turno, agora engajados na campanha do talvez ainda vitorioso ou quase certamente vitorioso e antes alvo de todas as denúncias dos agora subitamente aliados. Efusivos apertos de mão eram trocados frente a repórteres por mãos que antes teriam apertado o pescoço do outro até o último suspiro, em alguma viela escura.
Esta segunda classe de políticos, os bem colocados nas pesquisas, tem maiores adesões. Afinal os derrotados ao cargo de prefeito ou de vereador sonham que, ora, porque não, quem sabe, se dessa vez jogarem todas as fichas no vencedor, um cargo na prefeitura ou em alguma repartição administrativa ou melhor, será que se pode sonhar com uma assessoria?
O certo é que está aberta a temporada de acusações e denúncias contra seus “amigos” de ontem, enquanto que hoje até abraçam seus novos “irmãos de sangue”, pois agora na situação de derrotados e com dívidas de campanha a pagar, o negócio é enfiar a consciência no chiqueiro político e manter o nariz de fora. O ser que faz isso não consegue saber onde começa sua pele e onde começa ou termina sua consciência, seja ela política ou humana. Aliás, pelos comportamentos que vejo, não conseguem nem saber se tem pele ou couro. Os porcos pelo menos não tem essa dúvida.
Enfim, é nessa situação em que se meteram a política brasileira e seus participantes, mas convenhamos que não entraram nisso por acidente.
Eu diria antes que alegremente mergulharam na poça que é seu lugar natural.
Vellker – 12.10.08 – voltar para A_ÍNDICE GERAL 03
Fábulas de animais...
Termina hoje o horário político. Os mesmos atores de uma peça há tempos mal encenada, onde pretenderam passar a imagem de amigos do povo, preparam-se agora para encenar, os que forem chamados ao palco político, a peça “Crime sem Castigo” em triste oposição à peça de Dostoiévsky, “Crime e Castigo” onde ao menos o bandido terminava justiçado no final. Lembrando desta peça, lembrei-me também das fábulas de animais, onde os contos do acontecido entre animais nos levam à reflexão do que acontece entre nós, ditos bichos pensantes. E voltei a lembrar-me de uma pequena e doente cachorrinha, que acolhi no portão de casa, exausta e molhada pela chuva fina que caia. Chove agora e me relembro dela, me relembro acima de tudo do bom animal que foi nos dias em que viveu aqui. E deixo, como ponto de reflexão aos leitores que irão votar no próximo domingo, a história dela, para servir de exemplo e de comparação com os bichos ditos honestos que se apresentam como candidatos a tomar conta da casa nacional. Talvez mude seu voto...
Um pequeno animal e suas lições...
Enterrei no dia 23 do mês passado uma pequena cachorrinha que apareceu doente no portão da minha casa. Numa noite, quase caindo, se deitou do lado de fora e eu com pena dela passei a dar-lhe água e ração. Como animal abandonado tinha medo de tudo, demorou até ter confiança de entrar no quintal. Após algum tempo, vendo que não seria maltratada aquietou-se num canto, onde fiz uma casinha para ela.
Coberta de feridas, tive que tratá-la e pude perceber que aos poucos, na medida em que seu corpo se restabelecia, ela de forma surpreendente tomava conta da casa que a acolhera. Melhorando a cada dia, ela latia e cada vez mais alto, a qualquer estranho que passasse pela frente da casa. No quintal dos fundos também mantinha vigilância. Me senti gratificado num dia em que a havia banhado e quando fui soltá-la da corrente, ao me abaixar ela me estendeu a patinha. Podia ver seu estado de ânimo, sua alegria, sua confiança. O rabinho abanando e no ar a patinha estendida. Desde esse dia, toda tarde quando eu voltava, ela corria até a grade do portão e me estendia a patinha. Realmente mais civilizada que certos humanos.
Mas a doença que ela trazia no corpo já a tinha condenado. Ela melhorou muito por coisa de um mês e depois começou a perder a saúde novamente. Ainda assim, mesmo doente, vinha me receber quando eu voltava e mesmo mais fraca latia contra estranhos. Até o dia em que caiu sem forças. Chamei o veterinário e nada mais havia a fazer a não ser abreviar sua agonia. Naquela manhã, deixei-a bem confortável ao sol, para que não sentisse nenhum frio, dei-lhe água para tirar qualquer sede e afaguei sua cabeça com carinho. Consumida pela doença, ela mal podia olhar para mim. O veterinário deu-lhe a injeção de anestésico e em menos de um minuto sua agonia terminava e ela fechava os olhinhos. Fiquei de olhos úmidos ali.
De tarde peguei seu corpinho, a levei até uma floresta, cavei uma cova e a enterrei. Lembrei-me das vezes em que ela havia defendido a casa que a acolhera, da patinha estendida no ar, da sua confiança em ser bem tratada, de tudo e achei que havia feito certo ao invés de deixar seu corpo para ser recolhido pelo caminhão de lixo. Dei-lhe o funeral mais decente possível que ela como animal abandonado poderia ter.
Enquanto levava seu corpo e preparava a cova, ia me lembrando das notícias do projeto de lei dos deputados que institui o auxílio funeral de 16 mil reais para essa verdadeira quadrilha que hoje toma conta do legislativo no Brasil, das câmaras de vereadores até senadores. Não podia deixar de fazer comparações entre as atitudes daquele pequeno animal e as atitudes desses animais políticos, no mais baixo sentido, que hoje são o tormento dos brasileiros.
Enquanto abria a cova com a pá, pensei nas esperanças dos brasileiros, enterradas na vala comum da corrupção dessa gente, enquanto colocava o corpinho dela ali me lembrei dos corpos das pessoas mortas e abandonadas em hospitais públicos destruídos pelas fraudes desses políticos e quando cobri a cova, pensei nas promessas que esses políticos corruptos mataram e enterraram.
Me senti certo de uma coisa. Que aquele pequeno animal merecia aquele funeral, com honras mesmo, pois no pouco tempo em que vivera havia demonstrado valor e coragem que não vejo em nenhum político hoje. Aquela pequena cachorrinha doente, coberta de feridas, ao postar-se vigilante na frente do portão tinha mais nobreza, coragem e presença do que o mais bem vestido dos políticos de hoje. E muito mais caráter, apesar de ser apenas um pequeno animal.
Estava voltando pela estrada e tive a absoluta certeza de que, se por um desses acasos da vida, eu encontrasse ali um desses políticos que criaram o projeto de auxílio-funeral, eu o mataria com um único golpe daquela pá, sem piedade. Nem seria um assassinato, seria uma limpeza necessária.
Mas não enterraria seu corpo. Eu o deixaria ao largo na estrada para o caminhão de lixo. Mas fiquei certo de uma coisa. Os lixeiros o reconheceriam e não o levariam.
Mesmo o lixo tem uma certa pureza que nossos políticos não tem.
Vellker - 02.10.08 - voltar para A_ÍNDICE GERAL 3