| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 |
| 8 | 9 | 10 | 11 | 12 | 13 | 14 |
| 15 | 16 | 17 | 18 | 19 | 20 | 21 |
| 22 | 23 | 24 | 25 | 26 | 27 | 28 |
| 29 | 30 |
A saída é logo alí...
Entre estarrecido e admirado, o mundo assistiu nos últimos dias a um acontecimento insólito, que terá por certo ao longo do tempo repercussões políticas e sociais em muitos países. De início até discretas, mas com o passar do tempo consideráveis.
Desceram do Monte Olimpo onde reinavam absolutos, os deuses que com um comentário para alguns jornalistas ou uma diretriz para sua empresa, ditavam os destinos de milhões de empregos pelo mundo afora. Melhor dizendo, não desceram, foram arremessados do alto, pelo raio da tempestade econômica que ajudaram a desatar.
Hoje, inúmeros e atônitos executivos chegam para trabalhar e descobrem que seus cartões de entrada nas sedes das corporações em Wall Street não abrem mais as portas para eles e enquanto um segurança elegante e bem educado os chama para o clássico ritual de pegar suas coisas sob vigilância, ele se pergunta o que deu errado afinal, enquanto na porta o zelador já tira a placa com seu nome.
Outros colegas seus, mais assustados ainda, descobrem no aeroporto que o helicóptero que o levava todas as manhãs para o topo da sede do banco onde era o executivo chefe não virá mais. Aliás a fachada de seu banco acaba de aparecer nos últimos noticiários econômicos fechada após a falência, agora tornada pública. Enquanto isso outros colegas seus de outros bancos telefonam sem parar para saber das notícias. Alguns já estão sendo socorridos depois do enfarte enquanto liam as últimas notícias no café da manhã. O que seus chefes e colegas quiseram ocultar, os redatores dos jornais falaram abertamente.
Homens que por anos seguiram as teses de economistas neoliberais e liquidaram milhões de empregos pelo mundo afora, que provocaram a destruição de empresas e famílias, seguindo as idéias de Milton Friedman, agora se vêem alvejados com a mesma lógica implacável de que o mercado regula tudo. E se isso significa ficar sem emprego, sem poder sustentar a família, nem deveriam estranhar, foi isso que fizeram com outras pessoas ao longos desses últimos 10 anos.
Terminaram as chegadas nas sedes dos grandes bancos. Chegou ao fim o costume de olhar a grife do terno do seu colega, feita sob medida no alfaite mais caro de Nova York. Acabou o ritual de escolher a gravata italiana como quem escolhe uma estola de papa. Na loja de conversíveis importados, ele não é mais bem recebido.
Os termos que ele disse para seus clientes de outros países aplicarem sem pena, como "downsizing", "reengenharia", "readequação de custos", "flexibilização de pessoal", "direitos trabalhistas negociáveis" e outros, são agora aplicados em sua pele como um ferro em brasa no couro de gado. Um homem assim nem deveria estar perplexo, nem ressentido, nem mesmo temeroso do que o futuro lhe aguarda. Passou os últimos anos colocando milhões de pessoas no mesmo caminho, porque estranhar que ele mesmo seja lançado na selva agora?
Economistas como John Maynard Keynes que viu a reconstrução da economia pós 1a. Guerra Mundial, com suas idéias de que o Estado devia defender o cidadão passaram a ser considerados atrasados. Outro economista como John Kennet Galbraith, que viu a crise de 1929, que trabalhou no governo durante a 2a. Guerra Mundial, conflito China-Índia, Vietnã e também defendia a regulação do mercado em defesa do cidadão, atacando também o poderio desmedido das corporações, era visto também como um homem de concepções defasadas.
Vale olhar aqui neste espaço que debate assuntos políticos, esses acontecimentos que de uma forma ou de outra como uma maré que avança lentamente, acabarão chegando por essas praias, enquanto ministros e funcionários do governo dizem que está tudo bem, não há motivo para pânico, com a mesma sensação por dentro dos infelizes prisioneiros das Torres Gêmeas, de triste lembrança.
E podem, os mais íntimos desse círculo de poder, como seguranças e guardas que afinal tem que tomar conta da entrada das grandes corporações, olharem os elegantes executivos, que se um dia chegavam exibindo seu mais novo carro importado, hoje, nas reuniões das corporações que ainda não fecharam, se pegam em gritos, acusações de culpa e termos baixos, cada um querendo derrubar o outro, como lutadores de rua.
Descobriram afinal que é fácil dizer que o mercado regula tudo. Difícil é dizer isso quando ele salta em cima de quem fala como um tigre. Descobriram enfim que é fácil dizer que o governo não deve intervir em nada. Difícil é dizer isso de pires na mão pedindo dinheiro para esse mesmo governo.
Mas afinal, se o sábio mercado regula tudo, qual é o problema?
Vellker - 27.09.08 - voltar para A_ÍNDICE GERAL 3