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Um exemplo que fica...
Terminou a vida de um homem que fica como um exemplo. Morreu no dia 26 o ator Paul Newman, que nos brindou ao longo de 40 anos de carreira no cinema, com filmes inesquecíveis e com personagens marcantes. Uma das coisas que se destaca em sua biografia é sempre a vida regrada e discreta, longe de agitações e escândalos que marcam a vida de muitas celebridades, quando não as arruínam de vez.
Newman era um desses poucos atores a entender que a sua imagem no cinema não deixava de estar ligada com sua imagem na vida real. Entre o personagem das telas e o personagem da vida real, ia pouca distância no modo de agir. Ao longo da vida não deixou de dar exemplos e ter atitudes como a de personagens a que deu vida nas telas. Tendo construído uma sólida carreira, podia escolher personagens assim, heróicos ou trágicos, mas sempre procurando o que chamamos de correção e justiça ou a redenção pelos erros cometidos.
Na vida pessoal, empenhou-se em levar sempre adiante a empresa de alimentos que criou com um colega, chamada de Newman’s Own. Tendo começado como uma espécie de lazer, a empresa, impulsionada pela sua marca pessoal, tornou-se um grande negócio e através dos seus lucros, Newman destinou mais de 250 milhões de dólares para projetos filantrópicos, sem dúvida, nesses tempos de política que amargamos por aqui, mais um exemplo. Conhecedor das mazelas da ganância humana, adotou um slogan irônico e bem humorado para os fins de sua empresa: Uma exploração desavergonhada em prol do bem comum.
Dois filmes se destacam em seus trabalhos no cinema: O Veredito e Hombre. Em o Veredito, ele interpreta um advogado decadente, que tendo sido falsamente acusado pelos sócios de seu escritório, viu sua carreira de brilhante advogado arruinada e caído no alcoolismo, vivia de deixar cartões em velórios e resolver pequenas pendências judiciais, quando então pega o caso de acusação de negligência de um hospital, contratado pelos parentes da vítima, que pobres, só podiam contar com ele. Ao longo do filme, se retemperando, escapando de todas as armadilhas do seu oponente, consegue uma vitória incontestável no tribunal e seu personagem começa a trilhar o caminho de uma nova vida, uma redenção perfeita.
Em Hombre, ele faz o papel de um branco no Velho Oeste, que criado pelos índios desde criança, fora renegado pela sociedade branca e sai da reserva índia para ir até a cidade receber uma pequena herança de um parente. No retorno na diligência, discriminado por todos, Newman se torna a única chance de salvação deles ao reagir a um assalto e guiar os passageiros com seu conhecimento da região. Particularmente intensa é a cena em que ele, ao ser ameaçado por um dos bandidos, consegue puxar sua Winchester .44 abatendo-o no mesmo instante e pondo os outros em fuga. Nos tempos de hoje no Brasil, um exemplo sem dúvida.
Vai-se o homem, fica seu exemplo e o dos personagens que tão bem interpretou. Vendo de um ângulo político na atual e amarga situação em que vivemos, suas atitudes na vida pessoal e na vida dos personagens que viveu, nos deixam a sensação de que no veredito de todos, Newman, no melhor estilo de honra e coragem do Velho Oeste que hoje nos faz tanta falta por aqui, foi um Hombre, sem dúvida.
Vellker - 30.09.08 - voltar para A_ÍNDICE GERAL 3
A saída é logo alí...
Entre estarrecido e admirado, o mundo assistiu nos últimos dias a um acontecimento insólito, que terá por certo ao longo do tempo repercussões políticas e sociais em muitos países. De início até discretas, mas com o passar do tempo consideráveis.
Desceram do Monte Olimpo onde reinavam absolutos, os deuses que com um comentário para alguns jornalistas ou uma diretriz para sua empresa, ditavam os destinos de milhões de empregos pelo mundo afora. Melhor dizendo, não desceram, foram arremessados do alto, pelo raio da tempestade econômica que ajudaram a desatar.
Hoje, inúmeros e atônitos executivos chegam para trabalhar e descobrem que seus cartões de entrada nas sedes das corporações em Wall Street não abrem mais as portas para eles e enquanto um segurança elegante e bem educado os chama para o clássico ritual de pegar suas coisas sob vigilância, ele se pergunta o que deu errado afinal, enquanto na porta o zelador já tira a placa com seu nome.
Outros colegas seus, mais assustados ainda, descobrem no aeroporto que o helicóptero que o levava todas as manhãs para o topo da sede do banco onde era o executivo chefe não virá mais. Aliás a fachada de seu banco acaba de aparecer nos últimos noticiários econômicos fechada após a falência, agora tornada pública. Enquanto isso outros colegas seus de outros bancos telefonam sem parar para saber das notícias. Alguns já estão sendo socorridos depois do enfarte enquanto liam as últimas notícias no café da manhã. O que seus chefes e colegas quiseram ocultar, os redatores dos jornais falaram abertamente.
Homens que por anos seguiram as teses de economistas neoliberais e liquidaram milhões de empregos pelo mundo afora, que provocaram a destruição de empresas e famílias, seguindo as idéias de Milton Friedman, agora se vêem alvejados com a mesma lógica implacável de que o mercado regula tudo. E se isso significa ficar sem emprego, sem poder sustentar a família, nem deveriam estranhar, foi isso que fizeram com outras pessoas ao longos desses últimos 10 anos.
Terminaram as chegadas nas sedes dos grandes bancos. Chegou ao fim o costume de olhar a grife do terno do seu colega, feita sob medida no alfaite mais caro de Nova York. Acabou o ritual de escolher a gravata italiana como quem escolhe uma estola de papa. Na loja de conversíveis importados, ele não é mais bem recebido.
Os termos que ele disse para seus clientes de outros países aplicarem sem pena, como "downsizing", "reengenharia", "readequação de custos", "flexibilização de pessoal", "direitos trabalhistas negociáveis" e outros, são agora aplicados em sua pele como um ferro em brasa no couro de gado. Um homem assim nem deveria estar perplexo, nem ressentido, nem mesmo temeroso do que o futuro lhe aguarda. Passou os últimos anos colocando milhões de pessoas no mesmo caminho, porque estranhar que ele mesmo seja lançado na selva agora?
Economistas como John Maynard Keynes que viu a reconstrução da economia pós 1a. Guerra Mundial, com suas idéias de que o Estado devia defender o cidadão passaram a ser considerados atrasados. Outro economista como John Kennet Galbraith, que viu a crise de 1929, que trabalhou no governo durante a 2a. Guerra Mundial, conflito China-Índia, Vietnã e também defendia a regulação do mercado em defesa do cidadão, atacando também o poderio desmedido das corporações, era visto também como um homem de concepções defasadas.
Vale olhar aqui neste espaço que debate assuntos políticos, esses acontecimentos que de uma forma ou de outra como uma maré que avança lentamente, acabarão chegando por essas praias, enquanto ministros e funcionários do governo dizem que está tudo bem, não há motivo para pânico, com a mesma sensação por dentro dos infelizes prisioneiros das Torres Gêmeas, de triste lembrança.
E podem, os mais íntimos desse círculo de poder, como seguranças e guardas que afinal tem que tomar conta da entrada das grandes corporações, olharem os elegantes executivos, que se um dia chegavam exibindo seu mais novo carro importado, hoje, nas reuniões das corporações que ainda não fecharam, se pegam em gritos, acusações de culpa e termos baixos, cada um querendo derrubar o outro, como lutadores de rua.
Descobriram afinal que é fácil dizer que o mercado regula tudo. Difícil é dizer isso quando ele salta em cima de quem fala como um tigre. Descobriram enfim que é fácil dizer que o governo não deve intervir em nada. Difícil é dizer isso de pires na mão pedindo dinheiro para esse mesmo governo.
Mas afinal, se o sábio mercado regula tudo, qual é o problema?
Vellker - 27.09.08 - voltar para A_ÍNDICE GERAL 3
Senso de dever...
No noticiário da televisão no dia 22, vimos o estado de abandono de um pronto-socorro no Rio de Janeiro. Os médicos simplesmente não foram trabalhar e deixaram a população sem socorro. Além disso, um sistema de marcar ponto eletrônico que exigia a presença real do médico foi quebrado. Lá fora juntavam-se os doentes pedindo socorro, tão exasperados que depredaram as instalações. Cidadãos impotentes frente à situação. Pouco depois, quando chegaram soldados da Polícia Militar com um colega ferido e armados de fuzis e metralhadoras, os atendentes prontamente abriram a porta e os deixaram passar. O que os distinguia do cidadão comum? A posse e porte de armas. Nenhum atendente ou médico se fez de mal-educado e insensível na frente de fuzis M-16 e espingardas calibre 12. Chegamos num ponto aqui no Brasil em que já é lícito ao cidadão obter pela força o atendimento que o corrupto poder público lhe nega, seja em que esfera for, em socorro de si próprio, dos seus familiares e de vítimas abandonadas. De que adianta esses médicos fazerem juras solenes nas formaturas, se tem esse comportamento? É toda uma conjunção política, jurídica e social que permite essas iniqüidades contra o povo. Assim, achei correto editar novamente o texto sobre uma cachorrinha doente, que caiu junto do portão aqui de casa, teve socorro, uma breve vida e deixou lembranças para mim e lições para esses médicos.
Eu, uma cidadã...
Eu sou uma cidadã! Uma cachorrinha doente, mas com mais direitos do que os humanos dessa terra onde vivo. Essa é a minha constatação de vida. Estou hoje convicta disso. Pode um animal filosofar? Pode sim! Pode mais do que os humanos que vejo nessa sociedade de hoje, animalizados por livre e espontânea vontade em suas funções políticas e judiciárias, atacando um povo indefeso como o do Brasil em que vivo e onde um governo complacente a tudo assiste com discursos decorativos, esperando apenas que esses dois cúmplices lhe tragam a coleta diária de impostos e tão somente a isso se limita.
Injustiças, sofrimento e agonia do povo que dizem representar, nada disso interessa a esses poderes que se denominam poderes constituídos, mas que se tornaram nos últimos tempos poderes prostituídos, executivo, legislativo e judiciário, empenhados no dia a dia de ataques e saques contra o povo e a nação que deveriam defender, pois isso lhes é lucrativo política e financeiramente. Que diferença tem essa gente dos piratas antigos? Os piratas eram mais corajosos. Ao menos hasteavam a bandeira de piratas, entoavam hinos de guerra e partiam para uma luta de vida ou morte, diferente desses saqueadores modernos, que hasteiam uma bandeira chamada de nacional e entoam um hino chamado de nacional e se escondem atrás de seguranças enquanto seu povo agoniza nos hospitais públicos, saqueados pelos seus atos do que chamam cinicamente de governo. Sim, os piratas eram mais nobres. Ao menos diziam porque estavam vindo. E mais corajosos porque não se escondiam atrás de seguranças armados.
Há pouco tempo atrás caí exausta na frente da casa onde hoje estou. Que obrigação tinha seu dono de vir me socorrer? Suja, coberta de feridas, quase morrendo naquela noite, fui socorrida por esse desconhecido, que hoje me alimenta e me medica. Ao menos pude saber que existe algo além de correr de pontapés e pedradas, de revirar lixo para comer, de sofrer as agruras de uma doença que me devora o corpo, de tremer de frio em noites na rua, de correr de mordidas que me deixaram cicatrizes.
Tenho hoje meu amigo, que vejo contristado lendo as notícias do dia, onde mais denúncias e escândalos políticos e judiciários são noticiados, com os culpados impunes. Vejo-o entristecido assistindo esses telejornais que mostram os culpados de uma corrupção assustadora, antigos revolucionários de fachada, enfiados em todos os graus de saque contra sua nação, enquanto outros que nunca lutaram nem mesmo por um saco de lixo recebem milionárias indenizações dizendo-se “perseguidos do regime militar”. É o país dos coitadinhos, como disse um escritor que denunciava essas falcatruas.
Vi meu amigo acompanhando mais um telejornal ontem, mostrando mais um desfile de corruptos sorridentes dando entrevistas e fazendo seus programas políticos, mais um repórter mostrando hospitais públicos com os chamados cidadãos, homens mulheres e crianças de todas as idades abandonados na porta, amontoados nos corredores, agonizando em camas infectas, enquanto denúncias de refeições e medicamentos superfaturados são comentadas. Crianças em escolas com telhas faltando, com merenda escolar estragada jogada fora. Quantas merendas dessas terei encontrado em sacos de lixo? Não posso saber. Quantos membros desses três poderes chamados de constituídos, hoje transformados em poderes prostituídos enriqueceram às custas do sofrimento do seu próprio povo?
Sofri nas ruas pedradas, desprezo, fome, frio e doença. Ao menos eu fui apenas um animal abandonado. Triste sina mesmo é desses que são chamados de humanos, de cidadãos e cidadãs do Brasil, que trabalham sem descanso ou sofrem no desemprego, que são aprisionados no trabalho escravo, que morrem depois de dias de agonia em hospitais públicos, enquanto a televisão mostra mais um político corrupto e sorridente, falando que luta pela cidadania. E esses que sofrem assim ainda são chamados de cidadãos. Figura mais coerente com a situação era a minha como uma cachorrinha abandonada na rua.
Acompanhando a tristeza do meu amigo, vejo que os membros desses chamados três poderes são mais cruéis do que os cães que me atacavam, mais doloridos do que as pedradas que levei, muito piores do que a doença que me devora o corpo. Deveriam defender seu povo e sua nação e no entanto saqueiam, atacam e devoram seu próprio povo. Esses três poderes do Brasil onde vivo me parecem mais bem representados por um saqueador, por um canibal e por um abutre. Esses tipos estarão mais de acordo com o que eles fazem do que travestidos dessas pompas e solenidades de nauseante hipocrisia. Os lixões que eu revirava tinham mais decência do que esses palácios legislativos, judiciários e governamentais.
A doença que me atacou cobriu meu corpo de feridas, consumiu minhas forças, mal consigo levantar os olhos para meu amigo, que me olha com um tristeza enorme, mas me conduz com todo cuidado. Gostaria que esse chamado povo brasileiro pudesse conhecer algo assim. Que triste ironia a dessa gente. Dizem-lhe que vive a cidadania plena e na verdade é maltratada como um animal abandonado.
Meu amigo me leva para perto do jardim na frente da casa. O sol brilha e tira do meu corpo toda a sensação de frio, um calor suave me protege. Sinto minha vida indo, posso sentir. Sinto meu amigo afagando minha cabeça, meus olhos não podem mais enxergar. Nesses últimos tempos tive carinho, abrigo, alimento e remédios. Nesse dia ensolarado minhas dores terminam, meu sofrimento é passado e minha vida se vai, de forma digna. Morro como nunca pude viver, com dignidade. Vivi como um pobre animal, mas no fim, nos últimos momentos da minha vida tenho sorte.
Morro como uma cidadã.
Vellker - 24.09.08 - voltar para A_ÍNDICE GERAL 3
Passagens e lembranças...
Foi triste a semana com a morte de dois jovens, que em meio à onda geral de egoísmo se destacaram pela solidariedade e acima de tudo pela coragem, que lhes custou a vida, mas deixaram uma marca inesquecível de sua passagem entre nós.
Exemplos assim não devem ser esquecidos, apesar dos tempos em que vivemos. Nem sempre fomos tão egoístas assim, mas uma sociedade, muitas vezes premida pelo medo da insegurança e vendo a vitória dos desonestos, acaba se fechando em si mesma.
O surfista Tony Andreo Villela, de 32 anos, morreu no dia 14, na praia do Guarujá na Baixada santista, ajudando a salvar dois outros jovens surfistas, que ignorando os avisos de mar revolto e perigoso para a natação ou surfe, se viram envolvidos pelas ondas e já perdiam as forças quando o surfista mergulhou em seu socorro. Tony, que já tinha sido salva-vidas ajudou os rapazes, mas enfrentando o mar agitado salvando duas pessoas, gradativamente perdeu as forças e foi levado pelas ondas, terminando ali sua vida. Deixa uma esposa e uma filhinha. Os surfistas aventureiros fugiram sem maiores dramas de consciência. Salvos, preferiram se resguardar para outra aventura na praia.
Na noite do dia 17, o estudante Fábio Carvalho da Silva, de 24 anos, morreu na marginal Pinheiros em São Paulo, após ajudar um motorista em dificuldades na mesma via. Parou, ajudou no reparo do carro e quando estava próximo do veículo, foi atingido por uma carreta que não pôde frear. O estudante morreu e o motorista que ele ajudou fugiu sem prestar-lhe socorro, apesar de ter visto o atropelamento. A grande tristeza do pai dele, no enterro, era saber que mesmo tendo visto o rapaz atingido, a pessoa que ele ajudou fugiu, preferindo poupar-se de qualquer problema. O motorista do caminhão foi medicado e liberado. Ao que tudo indica, foi um acidente.
Fazendo uma analogia, o que mais dói nisso tudo é estarmos nós igualmente perdidos nesse mar revolto de egoísmo, sem que tenhamos ajuda. O que entristece é estarmos perdidos nesse caminhão sem freios de cinismo, sem chance de escapar.
De certa forma, apesar da tristeza do que vivemos, sabemos que a solidariedade não morreu entre nós. São inúmeros no dia a dia os gestos, grandes e pequenos, desconhecidos e relatados de solidariedade e ajuda, quando pessoas arriscam suas vidas para ajudarem outras.
O que não podemos é deixar de meditar e pensar na vida desses dois jovens que se foram, refletir sobre a dor dos seus familiares que ficaram e acima de tudo pensar no que queremos ser um dia, num momento de necessidade. Refletir sobre o caminho que seguiram.
O ser humano pode escolher entre caminhar numa larga e luminosa estrada ou rastejar numa escura e estreita trilha de ratos. Talvez nossa vida venha até a estar em risco ao ajudarmos alguém, mas rastejar por toda a vida na trilha de culpa de uma covardia tão desprezível não parece a melhor das escolhas.
A Tony Andreo Villela e a Fábio Carvalho da Silva e também aos outros desconhecidos heróis do dia a dia, todas as nossas homenagens, respeito e agradecimento pelo exemplo de vida e coragem.
Entre os que caminham e os que rastejam, que saibamos fazer a melhor escolha.
Vellker - 21.09.08 - voltar para A_ÍNDICE GERAL 3
Terrenos do cidadão...
Já está aberta para quem quiser, aproveitando por esses dias a proteção das tropas, a passagem ou passeio pelas comunidades do Rio de Janeiro dominadas por traficantes ou milícias e que até as eleições contarão com a ajuda das tropas do Exército. Depois contarão aos traficantes ou milicianos porque não votaram em seus candidatos, se eles perderem.
Não deixa de ser um progresso, mesmo que um triste progresso, que um século depois do voto de cabresto, quando coronéis impunham ao eleitor brasileiro o voto em quem eles queriam, o cidadão agora passe pelo voto de fuzil, que convenhamos, já é uma coisa bem mais vistosa e o tira dos humilhantes tempos em que aparecia encabrestado para esses tempos modernos de tecnologia bélica, onde ele pode ter a duvidosa honra de, se contrariar o voto do moderno coronel, terminar fuzilado. Entre ser encabrestado e fuzilado, o eleitor preferiria a primeira opção com certeza. Mas o progresso leva todos para a frente, neste caso para a frente do paredão comunitário.
Tropas do Exército ocuparam várias comunidades por esses dias, mas mesmo o juiz eleitoral reconheceu que é ostensiva a presença dos traficantes, que não se importam mais com a presença das tropas do Exército em suas comunidades e continuavam passando ao largo até mesmo às vistas do juiz, o que dá bem uma idéia da situação limite a que chegamos no Brasil. Mesmo o presidente do TRE carioca admite que a presença das tropas é um mero paliativo. Em outras palavras, depois de levadas as urnas eleitorais, caso o resultado da votação deixe os traficantes ou milicianos descontentes, começarão a chegar as tradicionais urnas funerárias.
Enquanto os candidatos, alguns protegidos das milícias e dos traficantes fazem os últimos discursos e seus rivais são postos fora das comunidades sob a mira de fuzis, nunca pareceu tão ironicamente apropriado que os primeiros navegantes que aqui chegaram tivessem chamado o Brasil de Terra de Santa Cruz.
Sob a terra estão a soberania popular, a cidadania, a justiça, a segurança, a educação, a saúde e outros personagens mais, que jazem com os cidadãos já sepultados ou a caminho do jardim das cruzes. Ou jardim dos eleitores, se parecer melhor.
Matérias a verificar:
Tropas do Exército ocupam morros do Rio
Juiz diz que tropas são apenas um paliativo
Vellker - 17.09.08 - voltar para A_ÍNDICE GERAL 3