| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | |
| 7 | 8 | 9 | 10 | 11 | 12 | 13 |
| 14 | 15 | 16 | 17 | 18 | 19 | 20 |
| 21 | 22 | 23 | 24 | 25 | 26 | 27 |
| 28 | 29 | 30 | 31 |
África, caçadas, troféus e entrepostos comerciais...
Com a chegada de Salvatore Cacciola ao Brasil, mais uma vez, nós brasileiros caímos em vergonha frente a nós mesmos e aos jornalistas do mundo todo. É pouco animador, para não dizer desesperador o fato de que o juiz do STJ, Humberto Gomes de Barros, concedeu a um homem que lesou a nação brasileira em mais de 1 bilhão de dólares, a garantia de não ser algemado ao pisar exatamente no solo da nação que ele roubou e onde foi condenado a 13 anos de prisão à revelia, por ter se aproveitado de um Habeas Corpus e fugido no ano 2000, depois da fraude no Banco Marka. Ainda mais quando feitas as contas com juros e correção monetária, o Brasil foi roubado em mais ou menos 5 bilhões de dólares.
No entanto, no caso da justiça brasileira, juros e correção monetária, fazendo uma comparação, para esses criminosos que não só roubam bilhões de dólares como sabem o nome de todos os envolvidos que ainda não apareceram, as contas para a aplicação de penas e agravantes para eles tem uma contagem de juros que é calculada para menos, ou seja, quanto mais tempo passado foragido, com mais regalias e vantagens são tratados. Na chegada no aeroporto, dava para ver no sorriso de Salvatore Cacciola a certeza de que desembarcar preso no Brasil é apenas um mero contratempo, a decisão do juiz Humberto já mostra isso. Ele já deve estar pensando em quando será seu retorno para a Itália e deve ter retirado Mônaco em definitivo da sua lista de viagens.
Enquanto suporta apenas para fazer teatro o passageiro aborrecimento de estar numa cela especial, paga pelo contribuinte brasileiro com o dinheiro que ele mesmo roubou, talvez na cela haja algum jornal velho, onde ele possa ler sobre a mulher que furtou um pote de manteiga de 3 reais e por isso passou 5 meses na cadeia, até que foi libertada. Sem dúvida o sorriso de Cacciola deve se abrir novamente por se saber mais do que nunca um privilegiado e amigo dos privilegiados. Rouba o Brasil em 1 bilhão de dólares e no fim se sai bem, a perigosíssima mulher rouba 3 reais e termina presa por por 5 meses. Se for para seguir o ritual de uma justiça que considera uma brasileira que rouba um pote de manteiga de 3 reais merecedora de prisão sem recurso por 5 meses, a que pena sem recurso deveria ter sido condenado um estrangeiro que cometeu uma fraude de 5 bilhões de dólares em nosso país?
Triste realidade do nosso país, das nossas cortes judiciárias, hoje transformadas em meros entrepostos comerciais, onde desaba por completo a farsa da constituição de 1988, que aliás foi criada pelos privilegiados de Brasília para consolidar de forma definitiva seus obscenos privilégios, extensivos ao seleto grupo de amigos, mas de forma alguma para fazer justiça ou ser de fato uma constituição, com toda a dignidade que esse nome nos traz. Sendo aliás uma negociata de privilégios com a qual o velho vigarista eleitoral Ulysses Guimarães pretendia alavancar suas pretensões à presidência da república, ela torna-se hoje uma espécie de manual desses modernos entrepostos comerciais jurídicos, na exata semelhança dos que existiam em países colonizados, como o Congo Belga, onde sob as ordens do rei Leopoldo os belgas tinham privilégios absolutos sobre a imensa massa de africanos colonizados.
Como outro triste exemplo dessa situação, temos a história do domínio colonial inglês na Índia, onde mandava o vice-rei britânico Lorde Curzon, editando leis da colonização britânica, que distinguia claramente os indianos dos britânicos, sendo que estes literalmente mandavam nos tribunais indianos, arrancando deles as decisões que mais lhes agradavam. Os dominadores britânicos eram cidadãos acima das leis, feitas para eles e somente em seu benefício.
Hoje Salvatore Cacciola, no seu passeio pelo Brasil, enfrenta apenas um contratempo. Na semelhança de algum europeu do século passado que passa por alguma febre passageira e inesperada em algum animado safári nas savanas africanas, poderá em breve o caçador Cacciola, de volta para sua casa na Itália, mostrar para seus amigos em sua casa, a cabeça da justiça brasileira, devidamente empalhada, como um exótico tapete da sua sala de troféus.
Admirados seus amigos perguntarão se ele não teve medo do tigre. Ele dirá que desse daqui não, mas o tigre de Mônaco, esse morde mesmo, aliás por lá, ele dirá que nunca mais volta. Prefere caçar mesmo o tigre brasileiro.
Matérias a verificar:
Salvatore Cacciola volta sem algemas
Mulher furta pote de manteiga e vai presa
Vellker - 21.07.08 - voltar para A_ÍNDICE GERAL 3
Terminando a compilação...
http://mordaz.blog.terra.com.br - Dedicado a comentar com visão crítica aspectos das religiões em nosso tempo e também sobre medicina alternativa, em especial as que se propõem a certas curas milagrosas, nem sempre tão milagrosas assim.
http://atmosphera1.zip.net - Comenta filmes, faz resenhas de roteiros diversos e também inclui alguns quadrinhos de criação própria. A parte de filmes é bem comentada, incluindo filmes antigos e os que foram lançados recentemente.
http://kontrastes.org - Criado por um biloguista português é interessante de ler, pelos seus comentários que mostram certas semelhanças doloridas na vida brasileira com a vida portuguesa, nos aspectos políticos e judiciário, onde os problemas são praticamente idênticos.
Vellker - 17.07.08 - voltar para A_ÍNDICE GERAL 3
Idéias, escritos e amigos...
Apesar da intensidade dos acontecimentos políticos dos últimos dias, abro um pequeno intervalo para apresentar as páginas de amigos e organizações que tem apresentado bons textos e reportagens nos temas que escolhem. Recomendo aos leitores que sem vem aqui que visitem sempre os espaços citados abaixo:
http://melisi.blog.terra.com.br - Espaço de uma escritora nascente. Uma mulher que tem a capacidade de recortar fragmentos do dia e coloca-los em palavras, retratando momentos bons e difíceis da vida, do dia a dia, que vale a visita para ler e meditar. Nem sempre é tão fácil colocar tudo em palavras e junto encontrar as imagens para ilustrar os sentimentos, mas ela consegue isso e muito bem.
http://promotordejustica.blogspot.com.br - Um bom exemplo de que nem tudo está perdido no meio judiciário. Apesar das tristezas e desilusões que temos tido, aqui aparece um espaço que com seus textos e artigos mostra que a noção de correção e decência está presente em muitos juristas com idealismo e capacidade de discernimento.
http://papeisavulsos.blog.terra.com.br - Um desmentido concreto da anacrônica idéia de que só deve ser jornalista quem tem diploma, o que tem resultado em nosso país na criação de um imenso reservatório de mediocridades. Poucos escapam. Entre eles está Dark Night Hunter, que é ao mesmo tempo cronista, comentarista e ainda por cima cartunista.
http://administrando.wordpress.com - Para os que gostam de artigos sobre o dia a dia da vida administrativa e descrição dos casos diversos que um administrador encontra não só em sua empresa, como também até mesmo como cliente ou observador do que ocorre numa loja ou grande empresa, vale a pena conhecer e aprender com os textos bem escritos.
http://www.conjur.com.br - Página especializada em assuntos do meio jurídico e suas repercussões na política, com espaço aberto para os comentários dos leitores. Aconselho para que vejam notícias das mais interessantes e possam deixar seus comentários e idéias também por lá.
http://www.espacovital.com.br - Outra página especializada em assuntos do meio jurídico, destacando a opinião de profissionais do meio em seus artigos, com notícias também do meio político e análises das repercussões dos mesmos. Traz também uma coletânea interessante de pérolas e casos do meio jurídico.
http://www.observatoriodaimprensa.com.br - Um espaço que quem gosta de jornalismo, política e bastidores dos dois temas se misturando não deve deixar de ver. Com notícias que muitos jornalistas e editores gostariam de ver apagadas, deve ser lido.
Agradeço aos leitores que visitam esse espaço e recomendo para quem ainda não criou seu espaço para expor idéias e imagens sobre os temas que gosta, que faça isso, que experimente. Além de gratificante, acabamos conhecendo bons amigos, que como nós gostam de escrever e comentar as coisas da vida.
Vellker - 17.07.08 - voltar para A_ÍNDICE GERAL 3
Cantar com a coragem, caminhar com a Justiça...
Após uma semana tormentosa, onde finalmente num caso de grande repercussão vimos o quanto a injustiça e a desonra hoje atormentam a sociedade brasileira, mais ainda nas grandes decisões judiciais, meditando sobre todos esses fatos me lembrei da canção de Geraldo Vandré, “Prá não dizer que não falei das flores” que foi escrita em 1968.

Escrita há tanto tempo, apesar de ser apenas o cantar de um poeta, expressou sentimentos sufocados. Revi sua letra e sob a luz de tudo o que aconteceu nesses dias de julho de 2008, reescrevi algumas palavras. Peço perdão ao poeta, mas em tempos difíceis, reescrita em protesto contra a aura de uma falsa liberdade e de uma democracia de hipocrisias, a palavra muitas vezes mostra o que sentimos e o que vivemos. As alterações que descrevem os tempo que hoje vivemos ou melhor sofremos, estão sublinhadas. Assim deixo a canção reescrita aqui:
Prá não dizer que não falei das flores
(Reescrita em 11.07.08)
Caminhando e cantando E seguindo a canção
Somos todos iguais Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas Campos, construções
Caminhando e cantando E seguindo a canção...
Vem, vamos embora Que mentir não é viver
Quem sabe faz justiça Não espera acontecer...
Pelos tribunais há injustiça em tristes decisões
Pelas ruas marchando sofridos corações
Ainda fazem da justiça Seu mais forte refrão
E acreditam na Verdade Vencendo a desilusão...
Vem, vamos embora Que mentir não é viver
Quem sabe faz justiça Não espera acontecer...
Há juízes envergonhados Amados ou não
Quase todos perdidos De almas na mão
Nas escolas lhes ensinam Uma antiga lição:
De vencer pela mentira e julgar sem razão...
Vem, vamos embora Que mentir não é viver
Quem sabe faz justiça Não espera acontecer...
Nas escolas, nas ruas Campos, construções
Somos todos juízes Corajosos ou não
Caminhando e cantando E seguindo a Razão
Somos todos iguais Braços dados ou não...
A verdade na mente A Justiça no coração
A certeza na frente A história na mão
Caminhando e cantando E seguindo a Razão
Aprendendo e ensinando Uma nova lição...
Vem, vamos embora Que mentir não é viver
Quem sabe faz justiça Não espera acontecer...
Cada tempo tem seus juízos, suas imagens. Vivemos esses de tristes juízos e pobres imagens.
Mas a nossa capacidade de indignação pode trazer tempos melhores.
Matérias a verificar:
O caso Daniel Dantas
Prá não dizer que não falei das flores
Vellker - 14.07.08 - voltar para A_ÍNDICE GERAL 3
Roteiros da vida real...
Continuam os acontecimentos que mostram como a vida imita a ficção. Em certos casos não se distingue uma da outra. Um dos grandes filmes sobre embates jurídicos é “Uma Questão de Honra” onde o comandante de uma guarnição dos fuzileiros navais americanos é chamado para depor num julgamento. No quartel sob seu comando um soldado havia morrido e dois fuzileiros eram acusados da morte dele.
Inicialmente visto como inocente, sua situação se complica quando o oficial advogado dos dois fuzileiros que haviam agido sob as ordens dele percebe que o comandante era afinal culpado. Por suas ordens havia sido aplicado um castigo físico no soldado que ele não gostava e que resultara em sua morte. Conseguindo deixá-lo exasperado no tribunal com uma argumentação hábil, conseguiu o advogado fazer com que o comandante se descontrolasse e admitisse aos berros, que sim, havia mandado aplicarem no soldado o castigo e faria isso novamente se achasse necessário. Imediatamente recebe voz de prisão e sai do tribunal para um presídio militar. Os dois fuzileiros, ainda sob o choque do acontecido e em lágrimas são culpados também, porém em menor grau do que o comandante, que havia tentado passar toda a culpa para eles. Eles só haviam cumprido ordens.
Nos dias de hoje, coisa incrivelmente parecida aconteceu no caso dos três jovens entregues pelo Tenente Vinícius Ghidetti aos traficantes do Morro da Mineira, de uma facção criminosa rival do Morro da Providência, onde tropas do Exército faziam a segurança de obras para os moradores e onde os três jovens haviam sido detidos pelo destacamento do tenente por desacato. Durante as primeiras audiências esfumaram-se as versões mais variadas de testemunhas misteriosas, que mais videntes do que testemunhas haviam dito a jornalistas, se é que disseram mesmo, que os rapazes haviam sido vendidos por 60 mil reais. Sabiam até mesmo dos detalhes do que fora dito ao telefone pelo militares na suposta conversa com os traficantes, porém nenhuma delas apareceu no tribunal. Tudo leva a crer que isso foi inventado em algum lugar. Nada disso surgiu nos depoimentos. Apareceu tão somente o trágico erro de avaliação e de conduta de um oficial, que descontrolado pelas ofensas que recebeu cometeu um erro, que de certa forma lhe custou a vida toda que ainda tem pela frente. Para o tenente aquilo era apenas um corretivo, um bom susto que os rapazes iriam passar. Para os rapazes, foi a condenação à tortura e morte, como aconteceu. E a isso foram entregues pelas ordens de quem deveria ter relevado o que aconteceu e deixado os rapazes na delegacia mais próxima.
No tribunal, frente aos juízes, com os depoimentos dos seus comandados que alegaram ter cumprido ordens, que não sabiam ao certo o que acontecia, que tudo segundo diziam seria apenas um corretivo, que seguiam as ordens do tenente que havia explicado o caso ao capitão do quartel, embarcaram nos caminhões e levaram os três jovens que imploravam a eles que não fizessem isso. E assim os três foram entregues e mortos. O que todos nós vimos nos noticiários, foi o tenente Ghidetti, finalmente tendo idéia do que havia feito, aos prantos, não suportando mais a pressão de tudo. O fato de ter sabido do destino dos rapazes, de ter levado seus comandados para essa situação, de ter exposto o capitão que recomendara a soltura dos rapazes à vergonha de ser visto como culpado quando nada pesava contra ele, a dor dos familiares dos rapazes e acima de tudo, a destruição de sua carreira no Exército, por ter exposto sua corporação a essa vergonha sem perdão. Não há aqui e nem devemos ter animosidade contra esse jovem oficial, mais propriamente agora descrito como ex-oficial. Sua vida profissional, pessoal e familiar foi de tal forma atingida pelo seu gesto impensado, que fica difícil imaginar como ele viverá daqui em diante.
Uma corporação como o Exército Brasileiro, que o recebeu em suas fileiras, que tem entre seus feitos as campanhas na Itália durante a Segunda Guerra Mundial, as batalhas de Castelnuovo, Montese, Monte Castelo, um exército que recebeu e zelou pelos milhares de soldados alemães que se renderam a ele, que tem na sua história o exemplo do sargento Max Wolff Filho, que arriscava a vida sob fogo inimigo para resgatar companheiros feridos.
De outro lado, as tropas brasileiras aceitaram a rendição de milhares de soldados alemães, que conduzidos pelos soldados brasileiros, ficaram presos sob a guarda de sentinelas brasileiros e depois foram libertados para seguirem a vida em seu país. Uma vez rendidos, até a ordem de libertação, permaneceram sob a guarda dos brasileiros de forma correta.
Fora a tragédia que foi todo o acontecido, a corporação militar se vê gravemente ofendida com a atitude do jovem tenente. Junto com a extrema dor dos familiares, existe agora a honra da corporação, que dificilmente irá perdoá-lo. Resta-lhe a expulsão, mais provável, a prisão ou a vida sob uma desonra tamanha que ninguém sobreviveria a isso.
No filme, na seqüência final, ao verem seu comandante sendo preso, mas mesmo assim ainda culpados, um dos soldados, atônito, pergunta ao outro o que aconteceu, porque ainda são culpados? E o outro mais firme, mas com lágrimas nos olhos diz que eles haviam falhado em sua missão, haviam jurado na corporação que defenderiam com suas armas os mais fracos e haviam fracassado nisso.
Ao vermos a figura alquebrada e vencida do tenente chorando no tribunal, reconhecendo seu erro, devemos tão somente sentir que se por um lado ele paga pelo crime de ter entregue os jovens à morte, entregou-se sem perceber, para uma vida de desonra e desmerecimento frente aos seus colegas de farda e aos cidadãos comuns que chega a amargar até mesmo o senso da justiça que está sendo feita. Cada arma do Exército Nacional tem gravada nela os selos e símbolos da nação brasileira. Cada comando exige postura para com os subordinados. Cada prisioneiro exige regras de conduta por parte de quem o guarda. E foi isso tudo que foi desonrado nesse episódio.
De agora em diante, para o tenente, o dia a dia não é mais uma questão de honra. Essa já foi perdida. É uma questão de sobrevivência.
Vellker – 09.07.08 – voltar para A_ÍNDICE GERAL 3