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Segredos do espírito...

Passados esses últimos dias olhando textos e relembrando de algumas idéias, pensei no quanto gostaria de voltar a escrever outras coisas neste espaço. Coisas sobre a vida, reflexões e contos. E sem dúvida farei isso.
Mas nos dias em que vivemos, quem se considerar um pouco humano, medita. Humano, demasiadamente humano, já dizia um pensador e veremos que afinal é impossível escapar do pensamento político. Nem se trata de escapar, trata-se apenas de aceitar e exercer o direito de pensar e agir da melhor forma possível. Nos dias de hoje no Brasil, nem é mais um direito.
É uma obrigação imposta por esse momento da História, se quisermos sobreviver como povo e Nação.
Por vezes pensamos que estamos no alto de uma montanha, olhando todo esse cenário. O que se estende à frente da nossa visão é um abismo. Temos medo de cair. Como chegamos a essa altura? Ou fomos trazidos aqui?
E em outros momentos é como se olhássemos lá de baixo o pico dessa montanha. Estamos então no abismo e como chegaremos até lá em cima? Como chegaremos a essas alturas? Ou seremos levados?

Tudo se torna referência, alto e baixo se tornam de certa forma iguais, indistintos do que vemos, uma forma de pensar nos envolve assim. Existe apenas o ser, em algum lugar, meditando, aprendendo. Há uma mistura de reverência e admiração nesse momento.
O filósofo Friedrich Nietzsche deixou uma frase que nos faz pensar a respeito disso:
“Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo passa a olhar para você.”
Espírito e mente, altura e abismo, tudo se torna uma só coisa.
Não é diferente com a altura que olhamos. Uma luz banha nosso espírito, se irradia pela nossa mente. Não faz mais diferença altura ou abismo.
Nos sentimos livres. Nos tornamos o olhar em si.

O Segredo do Abismo
Vellker – 23.05.08 – voltar para A_ÍNDICE GERAL 3
Um pequeno animal e suas lições...

Enterrei no dia 23 do mês passado uma pequena cachorrinha que apareceu doente no portão da minha casa. Numa noite, quase caindo, se deitou do lado de fora e eu com pena dela passei a dar-lhe água e ração. Como animal abandonado tinha medo de tudo, demorou até ter confiança de entrar no quintal. Após algum tempo, vendo que não seria maltratada aquietou-se num canto, onde fiz uma casinha para ela.
Coberta de feridas, tive que tratá-la e pude perceber que aos poucos, na medida em que seu corpo se restabelecia, ela de forma surpreendente tomava conta da casa que a acolhera. Melhorando a cada dia, ela latia e cada vez mais alto, a qualquer estranho que passasse pela frente da casa. No quintal dos fundos também mantinha vigilância. Me senti gratificado num dia em que a havia banhado e quando fui soltá-la da corrente, ao me abaixar ela me estendeu a patinha. Podia ver seu estado de ânimo, sua alegria, sua confiança. O rabinho abanando e no ar a patinha estendida. Desde esse dia, toda tarde quando eu voltava, ela corria até a grade do portão e me estendia a patinha. Realmente mais civilizada que certos humanos.
Mas a doença que ela trazia no corpo já a tinha condenado. Ela melhorou muito por coisa de um mês e depois começou a perder a saúde novamente. Ainda assim, mesmo doente, vinha me receber quando eu voltava e mesmo mais fraca latia contra estranhos. Até o dia em que caiu sem forças. Chamei o veterinário e nada mais havia a fazer a não ser abreviar sua agonia. Naquela manhã, deixei-a bem confortável ao sol, para que não sentisse nenhum frio, dei-lhe água para tirar qualquer sede e afaguei sua cabeça com carinho. Consumida pela doença, ela mal podia olhar para mim. O veterinário deu-lhe a injeção de anestésico e em menos de um minuto sua agonia terminava e ela fechava os olhinhos. Fiquei de olhos úmidos ali.
De tarde peguei seu corpinho, a levei até uma floresta, cavei uma cova e a enterrei. Lembrei-me das vezes em que ela havia defendido a casa que a acolhera, da patinha estendida no ar, da sua confiança em ser bem tratada, de tudo e achei que havia feito certo ao invés de deixar seu corpo para ser recolhido pelo caminhão de lixo. Dei-lhe o funeral mais decente possível que ela como animal abandonado poderia ter.

Enquanto levava seu corpo e preparava a cova, ia me lembrando das notícias do projeto de lei dos deputados que institui o auxílio funeral de 16 mil reais para essa verdadeira quadrilha que hoje toma conta do legislativo no Brasil, das câmaras de vereadores até senadores. Não podia deixar de fazer comparações entre as atitudes daquele pequeno animal e as atitudes desses animais políticos, no mais baixo sentido, que hoje são o tormento dos brasileiros.
Enquanto abria a cova com a pá, pensei nas esperanças dos brasileiros, enterradas na vala comum da corrupção dessa gente, enquanto colocava o corpinho dela ali me lembrei dos corpos das pessoas mortas e abandonadas em hospitais públicos destruídos pelas fraudes desses políticos e quando cobri a cova, pensei nas promessas que esses políticos corruptos mataram e enterraram.
Me senti certo de uma coisa. Que aquele pequeno animal merecia aquele funeral, com honras mesmo, pois no pouco tempo em que vivera havia demonstrado valor e coragem que não vejo em nenhum político hoje. Aquela pequena cachorrinha doente, coberta de feridas, ao postar-se vigilante na frente do portão tinha mais nobreza, coragem e presença do que o mais bem vestido dos políticos de hoje. E muito mais caráter, apesar de ser apenas um pequeno animal.

Estava voltando pela estrada e tive a absoluta certeza de que, se por um desses acasos da vida, eu encontrasse ali um desses políticos que criaram o projeto de auxílio-funeral, eu o mataria com um único golpe daquela pá, sem piedade. Nem seria um assassinato, seria uma limpeza necessária.
Mas não enterraria seu corpo. Eu o deixaria ao largo na estrada para o caminhão de lixo. Mas fiquei certo de uma coisa. Os lixeiros o reconheceriam e não o levariam.

Mesmo o lixo tem uma certa pureza que nossos políticos não tem.
Matérias a verificar:
Uma cidadã
Auxílio funeral dos deputados
Vellker – 16.05.08 – voltar para A_ÍNDICE GERAL 3
Uma ave amiga dos políticos...

Terminou por esses dias, sob protestos, a tentativa dos deputados sob as bênçãos do deputado Arlindo Chinaglia, de verem aprovado o projeto de lei que dava aos deputados do congresso nacional o chamado auxílio-funeral no valor de 16 mil reais. Não só corruptos do presente ainda deixariam os brasileiros vivos mais desvalidos, como os corruptos do passado voltariam para terminar de roubar o que não puderam em vida. Se considerados merecedores da honraria (?), a família receberia também esses 16 mil reais mesmo que o enterro tenha sido no século passado. Dessa forma, os deputados terão também criado uma modalidade única de assalto no mundo atual: o assalto mediúnico, onde passaremos a temer também o deputado já morto e enterrado, que se manifestará através de aumentos em taxas, tarifas e impostos, que serão seus médiuns modernos.
Nada poderia desmoralizar mais ainda a classe política brasileira do que isso, seja de que partido for. Tanto faz serem governistas, oposicionistas ou os chamados independentes, no caso os partidos de pouca representação. Na hora de votar algum projeto que aumente verbas, não há discussão contra, só se vêem votos a favor. E alguns teatrinhos de “indignados”, que mesmo assim embolsam a nova verba. Mas é também, de certa forma, uma boa coisa que os deputados tenham empenhado horas e horas de trabalho criando mais um projeto de lei que visa tão somente a saquear ainda mais o brasileiro comum. Enquanto projetos que possam ter alguma relevância para o dia a dia do povo mofam esquecidos em gavetas, os projetos que aumentam ou criam verbas para os deputados e senadores adquirem vida própria e saem voando, geralmente na forma de um abutre, para assolar o povo brasileiro.

Hoje, de norte a sul, o brasileiro se vê soterrado sob uma carga de tributos, em média 40% do que ganha some em impostos e para quê? Para sustentar assaltos oficiais como este, assaltos legalizados em projetos de lei, saques institucionalizados em nome da “democracia” e da “cidadania”. Bonitos títulos que inventaram por esses tempos para a atividade de punguista.
Com a repercussão desfavorável do projeto entre a população (e poderia ser diferente?) os deputados, sob o comando do seu presidente (ou mandante, como ficar melhor) Arlindo Chinaglia, fizeram uma retirada estratégica, deixando para votar o projeto futuramente, talvez em algum dia de transmissão de decisão de campeonato ou começo de feriadão, para chamar menos a atenção. Em golpes e trapaças, a câmara dos deputados e o senado no Brasil deixam longe trombadinhas e golpistas de rua. Um pequeno reparo: escrevo câmara dos deputados e senado com letras minúsculas. Apequenaram-se tanto as câmaras políticas no Brasil que não merecem, por enquanto, serem descritas em letras maiúsculas.
Para situar melhor as coisas, vamos recorrer ao dicionário Aurélio e com alguns nomes poderemos ver tudo melhor. Três palavras chamam nossa atenção: Canalhocracia, Canalhocrata e Canalha.
O que é Canalhocracia? É a palavra que define o regime, o governo dos canalhas, a canalhice como princípio e ação.
O que é Canalhocrata? É palavra que define o indivíduo da canalhocracia, pertencente ou relativo à canalhocracia.
O que é Canalha? É a palavra que define o tipo vil, sem caráter, sem vergonha, infame.
Nesta verdadeira canalhocracia que se tornou a política brasileira, independente da cor ou tamanho dos partidos, que só se interessam em verbas e ganhos, o valor da honra está sepultado na vala comum da ganância.
Na visão dos canalhocratas só existe isso, ambição, arrogância, loucura e pirataria, saqueando sem piedade um povo sofrido, cujas esperanças foram largadas ao relento, sem sepultura decente.
No ser canalha que viceja nas câmaras legislativas hoje em dia, só existe o pensamento de livrar-se de uma vez do corpo da população, que só existe para pagar-lhe impostos até o dia de sua morte, quando será largada em qualquer rua.

Assim, de forma inexorável, apesar de tudo, os políticos do Brasil, sem perceber, cavam dia a dia a sua própria cova, crentes de que estão cavando um túnel que os levará a mais ouro.
Regidos por um canalha, nem conseguem perceber que a sua destruição virá de sua própria ganância. Um dia a História registrará este período que vivemos, em que esse bando de canalhas estava bem representado pelo seu chefe ou mandante como parecer mais apropriado, Arlindo Chinaglia, todos de triste memória.

Sem auxílio-funeral, é claro.
Vellker – 08.05.08 – voltar para A_ÍNDICE GERAL 3
O homem que calculava...

Na Bolívia desses dias temos visto a movimentação da população no sentido de firmar de vez a divisão que sempre foi latente em seu meio. Hoje a pergunta não é mais se a Bolívia vai se dividir, mas quando. Evo Morales, o presidente desse país calculou mal certas atitudes e em questão de dias será confrontado com o resultado desses cálculos: fazer frente aos estados mais ricos e que reivindicam a autonomia ou então entrar em choque com eles, com nítida desvantagem econômica e militar, que já começa a se tornar política também.
Os departamentos, como são chamados os estados na Bolívia, notadamente os mais ricos e fronteiriços com o Brasil ressentiram-se da pregação social de Evo, com sua equivocada defesa das populações indígenas, guiada pela visão do confronto com a população considerada branca, no caso os descendentes de espanhóis e mestiços, que formam um setor conservador da população boliviana. Nada há de errado em um líder reivindicar a reparação de um erro histórico, coisa que fez a base de muitas nações modernas. Mas ao fazer isso ameaçando a população não indígena de submissão e talvez futuras retaliações, Evo deixou de ser o carismático reformador para levar todos a um beco sem saída. Há algum tempo atrás, em um concurso de beleza, a candidata do estado de Santa Cruz, ao ser entrevistada disse que além de não serem índios, eram todos brancos por lá. Isso dá uma idéia do sentimento de divisão.
País secularmente caído na miséria desde o tempo da dominação espanhola no século 16, com a população original entregue ao total abandono pelos conquistadores espanhóis, a Bolívia seguiu o triste caminho dos povos hispânicos de pobreza e instabilidade política. A história da Bolívia registra mais de 100 golpes de estado desde sua independência em 1825. Alguns ditadores chegaram a durar apenas alguns meses no poder antes de serem derrubados por outro.

Agitada em 1967 pela tentativa de Che Guevara de sublevar a região, depois das atenções e ajudas dos norte-americanos para acalmar e sufocar os problemas sociais e manter as camadas mais ricas protegidas em seu favor, voltou a Bolívia à sonolência de sempre, imersa na pobreza. Um dos exemplos maiores da espoliação do seu povo está na figura de Antenor Patiño, virtual proprietário da Bolívia, que vendia toda sua produção de estanho aos estrangeiros, enquanto seus mineiros trabalhavam em condições de semi-escravidão. Os mineiros que trabalhavam consumindo uma mistura de folhas de coca, cigarro e aguardente para suportar as duras condições de trabalho, caiam doentes poucos anos depois morrendo de doenças pulmonares enquanto Patiño dava festas luxuosas na Europa, onde viveu boa parte de sua vida. Um cenário que mudou muito pouco.
Nisso emergiu a figura carismática de Evo Morales, que representando as esperanças do povo indígena boliviano por dias melhores, ao invés de lançar as bases de uma união nacional e de um entendimento que desde 1825 era preciso, preferiu apostar no confronto com a população branca.
Acirrou a divisão de uma forma praticamente incontornável, fazendo com que a população diferenciada da indígena se sentisse até mesmo fisicamente ameaçada com uma vingança histórica. Ao mesmo tempo lançava uma ofensiva de desapropriações, que a rigor é legítima para governos que vejam seu povo espoliado por estrangeiros, desde que tenham condições de fazer isso. Pobre e incapaz de fazer até mesmo os pregos que seguram as placas dizendo que as empresas foram nacionalizadas, em pouco tempo viu-se Evo Morales tendo que fazer concessões e pedidos aos grupos econômicos que haviam perdido suas instalações na Bolívia. Já que era assim, diziam seus representantes, a Bolívia que arranjasse peças e técnicos por conta própria, o que era impossível.

Evo Morales pôde contar somente com a ajuda financeira e midiática de Hugo Chaves, o que pouco ou nada resolve, enquanto recebia congratulações de Fidel Castro e parabéns de Raul Castro, hoje líder de Cuba, o que resolve menos ainda seus problemas, enquanto os partidários dos grupos conservadores de Santa Cruz, Pando, Tarija e Beni, os estados mais ricos e equivalentes a 50% do território boliviano, irão nos próximos dias, em desafio ao presidente, votar um referendo de autonomia em relação ao governo central, o que na prática significa a secessão, se não formal, ao menos informal da Bolívia. Já começaram a aparecer os primeiros manifestantes ostensivamente armados dos dois lados em discursos de rua, enquanto Evo, às pressas baixou uma lei de confisco de armas, temendo o pior.
No caso de Evo Morales perder o controle da situação, é provável que venhamos a ver duas Bolívias, uma bem interior, com a população indígena, mais pobre e desvalida que hoje e outra constituída dos estados mais ricos, na fronteira do Brasil, cuja população nem esconde mais seu desejo de separar-se.
Tendo calculado no sentido de uma vingança histórica, diferente de um novo arranjo social, ainda que enfrentando choques e resistências de um grupo conservador que se veria isolado em prol de um novo projeto nacional, perdeu Evo Morales a chance de usar seu carisma para ao menos minorar as dificuldades que a Bolívia tem pela frente. Entre elas a própria secessão, ao custo de uma luta entre seus cidadãos.
Lembrando a tragédia que se desenrolou na antiga Iugoslávia, com suas guerras civis sangrentas que começaram com o mesmo tipo de divisão étnica, como sul-americanos podemos sentir pena do povo boliviano, mais uma vez imerso em uma situação social das mais tristes porque um líder carismático perdeu a chance de unir as mãos que se estendiam em sua direção, acenando por esperança e conciliação.

O líder que devia somar, preferiu dividir. Um cálculo de resultado imprevisível.
Matérias a verificar:
Antenor Patiño e sua riqueza
Evo Morales e os referendos
Vellker – 020508 – voltar para A_ÍNDICE GERAL 3