BILOGUE DE TEXTOS, IDÉIAS E IMAGENS.

Textos sobre temas diversos e imagens, tudo o que pode ser escrito e anotado após uma conversa com os amigos. Apesar do calor de algumas discussões, expor idéias, debater pontos de vista, porém sem inimizades. Vellker - (vellker@bol.com.br)

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Terra Blog

Arquivo de: Abril 2008

25.04.08

P50_Sou uma cidadã

categorias: P_POLÍTICA

Eu, uma cidadã...

Eu sou uma cidadã! Uma cachorrinha doente, mas com mais direitos do que os humanos dessa terra onde vivo. Essa é a minha constatação de vida. Estou hoje convicta disso. Pode um animal filosofar? Pode sim! Pode mais do que os humanos que vejo nessa sociedade de hoje, animalizados por livre e espontânea vontade em suas funções políticas e judiciárias, atacando um povo indefeso como o do Brasil em que vivo e onde um governo complacente a tudo assiste com discursos decorativos, esperando apenas que esses dois cúmplices lhe tragam a coleta diária de impostos e tão somente a isso se limita.


Injustiças, sofrimento e agonia do povo que dizem representar, nada disso interessa a esses poderes que se denominam poderes constituídos, mas que se tornaram nos últimos tempos poderes prostituídos, executivo, legislativo e judiciário, empenhados no dia a dia de ataques e saques contra o povo e a nação que deveriam defender, pois isso lhes é lucrativo política e financeiramente. Que diferença tem essa gente dos piratas antigos? Os piratas eram mais corajosos. Ao menos hasteavam a bandeira de piratas, entoavam hinos de guerra e partiam para uma luta de vida ou morte, diferente desses saqueadores modernos, que hasteiam uma bandeira chamada de nacional e entoam um hino chamado de nacional e se escondem atrás de seguranças enquanto seu povo agoniza nos hospitais públicos, saqueados pelos seus atos do que chamam cinicamente de governo. Sim, os piratas eram mais nobres. Ao menos diziam porque estavam vindo. E mais corajosos porque não se escondiam atrás de seguranças armados.

Há pouco tempo atrás caí exausta na frente da casa onde hoje estou. Que obrigação tinha seu dono de vir me socorrer? Suja, coberta de feridas, quase morrendo naquela noite, fui socorrida por esse desconhecido, que hoje me alimenta e me medica. Ao menos pude saber que existe algo além de correr de pontapés e pedradas, de revirar lixo para comer, de sofrer as agruras de uma doença que me devora o corpo, de tremer de frio em noites na rua, de correr de mordidas que me deixaram cicatrizes.


Tenho hoje meu amigo, que vejo contristado lendo as notícias do dia, onde mais denúncias e escândalos políticos e judiciários são noticiados, com os culpados impunes. Vejo-o entristecido assistindo esses telejornais que mostram os culpados de uma corrupção assustadora, antigos revolucionários de fachada, enfiados em todos os graus de saque contra sua nação, enquanto outros que nunca lutaram nem mesmo por um saco de lixo recebem milionárias indenizações dizendo-se “perseguidos do regime militar”. É o país dos coitadinhos, como disse um escritor que denunciava essas falcatruas.

Vi meu amigo acompanhando mais um telejornal ontem, mostrando mais um desfile de corruptos sorridentes dando entrevistas e fazendo seus programas políticos, mais um repórter mostrando hospitais públicos com os chamados cidadãos, homens mulheres e crianças de todas as idades abandonados na porta, amontoados nos corredores, agonizando em camas infectas, enquanto denúncias de refeições e medicamentos superfaturados são comentadas. Crianças em escolas com telhas faltando, com merenda escolar estragada jogada fora. Quantas merendas dessas terei encontrado em sacos de lixo? Não posso saber. Quantos membros desses três poderes chamados de constituídos, hoje transformados em poderes prostituídos enriqueceram às custas do sofrimento do seu próprio povo?


Sofri nas ruas pedradas, desprezo, fome, frio e doença. Ao menos eu fui apenas um animal abandonado. Triste sina mesmo é desses que são chamados de humanos, de cidadãos e cidadãs do Brasil, que trabalham sem descanso ou sofrem no desemprego, que são aprisionados no trabalho escravo, que morrem depois de dias de agonia em hospitais públicos, enquanto a televisão mostra mais um político corrupto e sorridente, falando que luta pela cidadania. E esses que sofrem assim ainda são chamados de cidadãos. Figura mais coerente com a situação era a minha como uma cachorrinha abandonada na rua.

Acompanhando a tristeza do meu amigo, vejo que os membros desses chamados três poderes são mais cruéis do que os cães que me atacavam, mais doloridos do que as pedradas que levei, muito piores do que a doença que me devora o corpo. Deveriam defender seu povo e sua nação e no entanto saqueiam, atacam e devoram seu próprio povo. Esses três poderes do Brasil onde vivo me parecem mais bem representados por um saqueador, por um canibal e por um abutre. Esses tipos estarão mais de acordo com o que eles fazem do que travestidos dessas pompas e solenidades de nauseante hipocrisia. Os lixões que eu revirava tinham mais decência do que esses palácios legislativos, judiciários e governamentais.

A doença que me atacou cobriu meu corpo de feridas, consumiu minhas forças, mal consigo levantar os olhos para meu amigo, que me olha com um tristeza enorme, mas me conduz com todo cuidado. Gostaria que esse chamado povo brasileiro pudesse conhecer algo assim. Que triste ironia a dessa gente. Dizem-lhe que vive a cidadania plena e na verdade é maltratada como um animal abandonado.

Meu amigo me leva para perto do jardim na frente da casa. O sol brilha e tira do meu corpo toda a sensação de frio, um calor suave me protege. Sinto minha vida indo, posso sentir. Sinto meu amigo afagando minha cabeça, meus olhos não podem mais enxergar. Nesses últimos tempos tive carinho, abrigo, alimento e remédios. Nesse dia ensolarado minhas dores terminam, meu sofrimento é passado e minha vida se vai, de forma digna. Morro como nunca pude viver, com dignidade. Vivi como um pobre animal, mas no fim, nos últimos momentos da minha vida tenho sorte.


Morro como uma cidadã.


Matéria para leitura:
Mato Grosso aprova lei para impedir julgamento de deputado


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18.04.08

R38_Um dia de sol

categorias: R_REFLEXÕES

Um dia de sol


Hoje olhei para essa imensidão chamada Sol. Havia lido sobre ele e fiquei sem acreditar na capacidade que tem de gerar energia. Essa luz que bate em meu rosto, se espalhando em todas as direções. O meu corpo aqui, eu, tudo o que sou, banhado por essa luz, apenas um microponto no nosso Universo. Um átomo perdido nessa vastidão cósmica.


Porquê meditamos sobre isso? Tenho essa floresta linda para vir algumas vezes para meditar, tenho essa felicidade de poder em alguns momentos da vida me perder nesse labirinto de pensamentos, que é um labirinto delicioso, leva sempre a outro pensamento mais fascinante. Estou só. Olho para um círculo de flores silvestres e me lembro do olhar da mulher que amo, na tarde em que estivemos aqui, caminhando e pensando nessas coisas juntos. Em códigos da Natureza e em códigos de amor.


De uma forma inexplicável, mesmo frente a esses pensamentos, percebo que o amor faz parte dessa luz que me ilumina e ao mesmo tempo me lembro dessa mulher, com seu olhar feliz, ao ver que eu estava olhando para ela enquanto lia um livro escrito há séculos e séculos atrás por um homem que meditava coisas assim. Penso mais uma vez na vastidão do Universo. Nessa imensidão, é uma mulher assim que tenho perto de mim. O Infinito nos envolve e por uma série de acontecimentos viemos a ficar juntos. Hoje ela está distante e eu conto os dias em que poderei rever seu olhar feliz ao nos reencontrarmos e sentir seu abraço e seu beijo. Quando ela está longe, é como se o Universo ficasse maior, desconhecido. Quando ela está perto, é como se o Universo estivesse em nosso quintal. E nessa floresta que ela também aprendeu a amar.


Mais que isso penso também nessa vastidão inquietante e ao mesmo tempo fascinante. O conhecimento que alcançamos. Nossa galáxia se move pelo Universo a 200 quilômetros por segundo. Como estou longe do ponto onde comecei a meditar. E ao mesmo tempo estou no mesmo lugar. Olho para a areia na estrada à minha frente. Imensas rochas de milhões de anos atrás, hoje transformadas na areia onde ficam minhas pegadas. Aparecem na minha mente as pegadas fotografadas de habitantes das cavernas. Passaram por aqui também. No conforto dessa sombra, cenas daqueles tempos surgem na minha imaginação. Grandes montanhas, tempestades gigantescas, seres primitivos que um dia existiram aqui e hoje se tornaram essa areia. Assim dizia o grande poeta árabe Omar Khayan, sobre a areia que carrega em seus grãos o passado das vidas de incontáveis seres que um dia foram vivos. Pedras e almas, vidas e sentimentos, realidade e sonhos que se foram e que virão se misturam nesses grãos. Não há como separar um do outro. Emociona e comove ao mesmo tempo.


Olho de novo para os pontos de luz entre as folhas das árvores. Me diz um astrônomo que o Sol queima 300 milhões de toneladas de hidrogênio por segundo numa fusão nuclear. Irradia assim essa luz em todas as direções do Universo. Vejo a luz me ofuscando, sinto a luz na minha pele e penso nisso.


Passa na estradinha a figura de uma menininha, numa bicicleta cor de rosa. Cabelos ao vento, a alegria de passear, sua voz estridente e alegre, a floresta em sua volta como se a protegesse, a estrada que lhe mostra um caminho. Tudo isso é só uma partícula nesse Infinito, mas o que vejo me parece tão grandioso quanto esse Infinito, como se tudo isso fosse apenas um reflexo dele no espelho da mente.


Penso nas palavras de um cientista inglês que disse uma vez que para ele, ao invés de uma grande máquina, o Universo lhe parecia um grande pensamento.


Olho mais uma vez a menininha. Um figura de extremo carinho, uma promessa de vida, geratriz de outras vidas, de outras meditações. Fico de olhos úmidos. Penso nesse Deus que filósofos, homens e mulheres de visão descrevem desde tempos antigos, de uma forma que abrange o centro desse Universo e ao mesmo tempo o envolve.


Se esse Deus escolhesse uma forma para aparecer, seria na figura dessa menininha. Suave, doce, feliz, cabelos ao vento, olhar brilhante, refletindo a mesma luz do Sol que criou.


Como posso saber que não foi ele que passou por aqui agora pouco?


Vellker – 19.04.08 – voltar para A_ÍNDICE GERAL 3

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