BILOGUE DE TEXTOS, IDÉIAS E IMAGENS.

Textos sobre temas diversos e imagens, tudo o que pode ser escrito e anotado após uma conversa com os amigos. Apesar do calor de algumas discussões, expor idéias, debater pontos de vista, porém sem inimizades. Vellker - (vellker@bol.com.br)

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Terra Blog

Arquivo de: Março 2008

28.03.08

P49_O Brasil de hoje

categorias: P_POLÍTICA

Uma parte da história sendo escrita...



Tem sido mesmo difícil para o brasileiro, o autêntico cidadão comum, olhar e tentar reconhecer o Brasil que um dia conheceu, sem dúvida em melhores condições. Sim todos correm e fazem compras, pesquisas de opinião dizem que todos estão felizes, mas para quem perguntam isso? Mas enquanto olhamos, o sonho de um Brasil que conhecemos um dia em promessas há 23 anos, tornou-se definitivamente aquilo que o sociólogo Florestan Fernandes já denunciava em seu livro “A Constituição Inacabada”.


Participante dos trabalhos da constituição de 1988, Florestan Fernandes deixou um testemunho político em seu livro, onde narra as coisas que viu nos bastidores da assembléia constituinte, como tramóias, conchavos e vendas de privilégios para os membros do legislativo e judiciário, a tristeza de ver dia a dia o povo iludido por uma imprensa com jornalistas que procuravam tão somente a amizade dos donos do poder, para posarem de estrelas da imprensa, políticos que visavam somente seus interesses pessoais e corporativos e altos membros do judiciário, pressionando em bloco os constituintes com a mesma finalidade. O executivo a tudo assistia complacente, como hoje ainda o faz.


Ressuscitava assim naquela época, o mesmo sistema político de antes de 1930, o mesmo sistema de vícios e favores pessoais, de amizades com os ocupantes de governos estaduais e federal, tudo em troca de uma favores recíprocos, chamados pomposamente de constituição. Tudo o que Getúlio Vargas veio a derrubar em 1930, o que era chamado de República Velha, dos coronéis e voto de cabresto, voltava sob a direção de José Sarney em 1985, com Ulysses Guimarães de co-piloto, com os coronéis políticos agora usando paletó é gravata ao invés de botas e chicote.


Cabe aqui um esclarecimento: os leitores notam que uso os termos legislativo, judiciário, executivo e constituição em letras minúsculas. Assim tem que ser. Quando os homens que fizeram essas coisas se apequenaram tanto e em torno de si arregimentaram apenas vassalos e aduladores políticos, letras maiúsculas são impróprias para dar nome a tais assembléias e instituições. Mesmo a nossa imprensa prestou-se logo ao favor de criar biografias falsas de heróis que sempre viveram acuados e de reformadores que nunca pretenderam reformar nada, a não ser os privilégios de sua classe política ou judiciária.


O que vemos nesses últimos anos, apesar dos vivas entusiasmados das pesquisas de opinião pública é o naufrágio da sociedade brasileira sob o banditismo oficial dos gabinetes governamentais, que tem como concorrente o banditismo informal das ruas. O último exemplo disso é a epidemia de dengue no Rio de Janeiro, onde agora a cada hora se registram 10 novos casos. Dizendo-se solidário com a população que o elegeu, o prefeito César Maia passa esses dias de crise em salvador, onde foi prestigiar solenidades do seu partido, o DEM, antes conhecido na praça como PFL, mas que à semelhança de certos estelionatários mudou de nome assim que seu antigo dono Antonio Carlos Magalhães morreu.


Em comovida entrevista aos telejornais de ontem, César Maia declarou-se irmanado com o povo de sua cidade, dizendo que está rezando ao Senhor Jesus do Bonfim para que leve os mosquitos da dengue para alto mar. Enquanto isso ele derrama lágrimas olhando para o retrato de Antonio Carlos Magalhães e na cidade onde ele deveria estar ao lado do seu povo, dezenas de cidadãos cariocas derramam lágrimas verdadeiras olhando para o retrato dos parentes falecidos por esses dias após agonizarem vítimas da dengue.


Ë mesmo impossível reconhecer o Brasil dos dias de hoje do Brasil com o qual um dia sonhamos. Como povo, fomos na verdade traídos por um bando de oportunistas, aos quais interessava nada mais do que o lucro pessoal e político que pudessem ter, mesmo que às custas do sofrimento de uma nação inteira.


Mas a esperança de um povo nunca é traída impunemente. Exemplos não faltam pela história do mundo.


Linques a verificar:
Revolução Francesa
Revolução Americana
Florestan Fernandes


Vellker – 28.03.08 – voltar para A_ÍNDICE GERAL 3

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  • Postado em 13:43:02

16.03.08

R37_A floresta

categorias: R_REFLEXÕES

A vida sempre volta...


Olho sempre para uma floresta que existe perto da estrada onde sempre passo. Por vezes caminho lá dentro.


Ver a altura das árvores, sentir a sombra deliciosa e o perfume de pinho no ar. Caminhar lá, ver um pequeno riacho, sentar, olhar a natureza, meditar. Poucas coisas são tão boas assim.


E me lembro do dia em que voltei de uma viagem e já de longe não via a copa das árvores. Estranhei. Ao dar a volta na estrada senti uma tristeza enorme. Olhando onde antes era a floresta que eu conhecia, só podia ver as árvores cortadas e caídas, os tocos das árvores, as máquinas trabalhando, caminhões levando os troncos cortados. Tratores avançando e abrindo caminhos entre eles.


Não tinha mais a floresta. Por alguns dias andei em seu interior, no que havia restado. Na verdade não havia restado nada. Do começo que eu conhecia até o os limites perto do riacho, nada mais estava de pé. Só os tocos cortados, com a seiva brotando. O ar seco, o sol e a poeira que o vento quente trazia davam àquele lugar uma sensação que eu nunca tinha conhecido. Me senti derrotado e roubado.


Na verdade minha própria vida não estava muito diferente. Tudo o que eu sentia na minha alma estava ali, materializado de forma irrespondível na floresta que deixara de existir. Me sentei na beira da estrada e por um instante senti os olhos úmidos.


Foi então que reparei num dos troncos cortados, onde um pequeno e tímido ramo verde começava a brotar. Comecei a olhar em outros troncos e alguns deles tinham o mesmo ramo. Outros ainda estavam úmidos de seiva, mas vivos, aliás quase todos. Apesar da tristeza que sentia, notei que a vida voltava ali. Demoraria sim, algum tempo, anos mesmo para voltar, mas a vida que eu conhecera ali voltaria sim. Por um bom tempo fui passando pela estrada, vendo a floresta crescer para vida. De certa forma, mesmo errática, minha vida voltava a crescer junto com ela. Ainda é assim, ainda não reencontrei meu caminho, mas ouço uma voz que me chama em certos momentos, me dizendo para não desistir. Uma voz que me diz para não parar quando me sinto perdido. O sol quente volta, mas já tenho sombras para me proteger, o ar fresco traz novamente o perfume de pinho, já posso sentar no entardecer e meditar vendo essa profusão de vida. O silêncio da floresta e da alma me deixam ouvir essa voz que me anima. Ainda tenho um longo caminho pela frente, mas essa voz hoje faz parte da floresta. Quando me sinto perdido, espero para ouvi-la.


Hoje no mesmo ponto em que me sentei olhando tudo perdido, existe um verde majestoso, a cada dia de chuva olho para lá e as árvores estão cada vez mais altas. A vida voltou afinal. Como eu havia acreditado, ano após ano, renascendo dos cortes, apagando o rastro dos tratores e onde eles haviam arrancado até as raízes, novas sementes caíram, novas árvores crescem. Sinto os olhos úmidos novamente, mas é por ver a vida ressurgir. 


Ainda vou caminhar nessa estrada, com essa floresta refeita, sombreada, perfumada, de mãos dadas com a mulher que com essa voz, por mais difíceis que sejam certos dias, me diz para não desistir.


Afinal a vida retorna...

Vellker – 16.03.08 – voltar para A_ÍNDICE GERAL 3

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  • Postado em 12:17:50