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Sol, trilhos e garoa...
Atravesso de novo os trilhos da velha ferrovia que passa por minha cidade. Olhar cansado, mesmo eu me sinto cansado até a alma. O cansaço vai além do corpo. Atinge a alma, o ser, tudo o que podemos conceber como além corpo. Nem me preocupo mais em questionar se existe ou não algo além corpo. Se existe, chega até mim em ondas de cansaço. Chega acima de tudo acompanhado de ondas que me lembram as de um mar revolto.

Os dias se sucedem, as horas são sentidas e os momentos percebidos de uma forma dolorida. Olho de novo para os trilhos e me lembro de tantas coisas que essa pequena ferrovia me traz na lembrança. Me lembro do olhar da minha mãe, cansada, deitada em sua cama, ainda doente e sei que quando piso nesses trilhos, é como se pisasse na terra da cidade onde ela nasceu.
Coisas da vida. Muito antes de eu nascer essa ferrovia já existia. Ainda criança viajei com minha mãe até a pequena cidade onde ela nasceu e cresceu. Sempre que passo aqui me lembro disso, os lugares por onde essa ferrovia passa, lugares que me trazem lembranças felizes, que ajudam a amainar esse sentimento de cansaço. Sinto meus olhos úmidos, uma pessoa vem vindo na direção contrária e abaixo a cabeça para que ela não veja.
Não só tristeza, mas uma revolta profunda me atinge. Mas ainda assim, os trilhos dessa ferrovia, a garoa das noites sem sono, quando caminhei por aqui e agora o sol da manhã...
Lembranças de noites passadas e ao mesmo tempo esse sol, que me ilumina fazendo os trilhos brilharem.Alguns deles mostram o que restou de um velho caminho. Parado, de frente para ele, me sinto sem saída. Me lembro de registrar o momento. Volto até minha casa para pegar a máquina fotográfica, minha velha máquina e fazer essas fotos. Servirão ao menos de lembrança viva desses dias, desses tempos em que esse mar bate em ondas no meu ser.

Em casa, no pequeno jardim que minha mãe plantou, flores sobem como se seguissem o caminho da luz do sol. Lá dentro ela está deitada. Acabei de vê-la novamente, de lhe dar água, ver como está e a deixei coberta enquanto volto lá fora. Uma borboleta pula de flor em flor. Tento fixar sua imagem. Impossível, ela não para. A vida se move para um lado e começa a parar em outro. Meus olhos ficam úmidos de novo. Mas em certo momento ela desce sobre uma flor, sobre mais outra e fica quase parada. Aproveito para tirar a foto e depois ela se vai ao sol e ao vento. Registro toda a vida do jardim, as cores, momentos de sol pleno e momentos de sol encoberto quando as nuvens passam.
Revejo as fotos depois, as cores, a vida. Minha mãe mais recuperada, olha as fotos e fica feliz. Uma vez ela tinha falado de como gostava de ver as borboletas voando em volta das flores e naquela manhã, aquela pequena borboleta apareceu, esvoaçando suas cores no jardim. Ela olha as fotos e guarda junto dela. Um dia vou olhar essas fotos novamente, relembrando.

Caminho de novo para a cidade, passando pela ferrovia. Vejo os trilhos como uma forma de ligação com esses lugares que já conheci e onde fui feliz. Parece assim, a felicidade como uma borboleta está sempre inquieta, raramente pára num lugar para que possamos vê-la. Ou tê-la. Ou somos nós que não paramos? Olho para as pedras onde os trilhos se assentam e me lembro que por ironia do destino essa ferrovia passa na frente de uma pedreira. Eu via as explosões enormes, as imensas pedras sendo moídas em pequenas pedrinhas. Muitas delas sustentam esses trilhos. Podia sentir no ar o choque das explosões. Sinto agora esse abalo no meu ser e é como se eu fosse feito em pedacinhos, como essas pedras, que um dia foram parte de uma muralha enorme. Me sinto pequeno como elas, com um peso imenso para suportar.
E olho um pouco mais para a frente. Minha atenção é tomada por uma pequena plantinha, um verde tímido, crescendo por entre as pedras. Pedras, calor, sol, trilhos...e ela crescendo, não sei como. Guardo sua imagem.

Começa a vir uma pequena garoa. Essa plantinha supera tudo isso, de forma incerta recebe a água que a faz viver, abre caminho entre as pedras. Apesar de tudo, vive.
Olho de novo para ela. A vida me traz essas ondas de tristeza, mas aquela pequena plantinha me traz um momento suave. Fico sem saber se é um exemplo ou se é uma sina. Seja como for, é admirável vê-la crescendo ali.
Começo a caminhar sem direção. Em momentos assim me sinto sem saída.

Mas procuro caminhar.
Vellker – 20.02.08 – voltar para A_ÍNDICE GERAL 3