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O que é mais assustador...? Cair ou sair de um poço...?

Na segunda-feira, fim de noite, me preparava para ler, quando vi na programação da televisão, o anúncio do filme de terror “O Chamado’’. É um dos mais assustadores que já foram feitos. Eu já tinha assistido em 2003 e depois nunca mais. A idéia de revê-lo me deixava em dúvida. Acabei, tarde da noite, revendo o filme.

Baseado no conto de um escritor japonês, com poucos efeitos especiais e cenários comuns, o filme nos leva a um terror, se olhamos bem dentro de nós mesmos, como seres humanos. Ele nos deixa perceber como a nossa humanidade e sanidade estão por um fio, sem que nem saibamos disso.
O que nos leva ter medo de um filme, como se fossemos crianças, a sentir uma sensação que vai beirando o terror ao nos lembrarmos de suas imagens, da trama, dos personagens, de tudo o que acontece com eles? Parecia-me impossível que eu pudesse sentir tamanha opressão no peito e ao mesmo tempo continuava vendo o filme, relembrando de cenas que não via há tanto tempo.
Os elementos básicos do filme, uma fita de vídeo, televisores, telefones, coisas comuns que rondam nossa existência, impregnados de um horror que os personagens não sabiam existir.
Parecia ao mesmo tempo, que a casa, silenciosa e escura, guardava em algum lugar, alguma coisa tão sinistra que me prendia numa sensação sufocante, enquanto via o filme e revia as cenas.
No final do filme, deixei o pensamento vagar e fui percebendo que talvez, de forma similar, em cada pessoa que o veja, exista a predisposição a ouvir um chamado. Talvez seja isso o que mais assusta quem o vê. O escuro dentro de cada um de nós, a possibilidade de cada um de nós, num certo momento da vida atender a um chamado que nunca esperamos nem queremos, mas que por instinto, como seres humanos, sabemos de sua existência.

No filme, na fita de vídeo que os personagens vêem e que assinala os horrores que viverão, existe a cena de um espelho. Há uma experiência mística, pouco conhecida, de visualizar imagens, que na verdade não sabemos de onde vem. Numa sala completamente escura a noite, com um espelho na frente, uma pessoa deixa uma vela acesa a uns dois passos atrás dela, numa mesa. Senta-se olhando para o espelho e observa as imagens que se formam. É assustador. Não sei se vemos o que existe em nós ou fora de nós. E se tomarmos consciência do que pode existir fora de nós, é coisa a se temer. Nem sempre é assim, mas é espantoso.
No filme, tudo o que representava o mal, a destruição das pessoas como corpos e almas, tudo o que espreita na escuridão, estava na forma de uma menina presa num poço. Foi aí que pensei que em cada ser humano existe um poço assim, fechado com uma pesada pedra. Dentro um chamado, só aguardando a chance de sair.

Caminhei até minha sala, sufocado por essa sensação de medo e aos poucos na escuridão pude delinear a estante com meus livros e nelas os livros sobre História. Pensei em personagens históricos, em coisas que fizeram e como muitos diziam atender a um chamado. Adolf Hitler hipnotizou milhões de pessoas. Ele mesmo dizia atender a um chamado que considerava divino. Milhões de pessoas atenderam o chamado dele e o resultado foi o horror que se viu. 
No Camboja, décadas depois, Pol Pot, comandando as tropas do Khmer Vermelho, chamou todos os seus comandados e disse que iriam reescrever a história do seu povo, com a utopia do Ano Zero e deu-lhes as ordens para fazerem tudo o que fosse necessário. As torturas e horrores que caíram sobre o povo cambojano, atacado por soldados imersos numa loucura homicida fazem eco até hoje na história do mundo. 
Na África, vemos os grandes massacres de populações inteiras, com soldados atendendo o chamado de líderes, alguns quase divinos para seus seguidores, que despertam seus instintos mais primitivos e horríveis. O que fazem marcam todos que vêem as coisas de que o ser humano é capaz.
Numa cidade americana, um lutador matou sua filha e sua mulher e suicidou-se. Perto do fim de ano, no Brasil, um homem matou sua mulher e seus filhos e ao lado dos seus corpos também se matou. No que chamamos de consciência individual e no que chamamos de consciência coletiva, independente de raça, religião ou parte do mundo ou culturas, o ser humano age assim.

Voltei para meu quarto e olhei a televisão desligada. Relembrei de tudo isso que havia pensado e por um instante tive medo que ela se ligasse sozinha, como no filme. Como minha mente dita racional reagiria a isso? Percebi realmente que dentro de cada um de nós existe mesmo esse poço, com essa maldição dentro, só esperando um chamado para sair. 
Fora, ao redor dele, o retrato da nossa alma, um campo verdejante, um sol claro, os pensamentos e a vida transcorrem, enquanto esse poço permanece fechado. E nada avisa sobre ele.
Talvez o mais aterrorizante de tudo não seja a existência dele, que afinal deve fazer parte de nós. O medo pode estar em não sabermos se nossa alma pode cair nesse poço ou sair de dentro dele.
Talvez o mais aterrorizante não seja o chamado que venhamos a ouvir.
Talvez o verdadeiro horror esteja em atendermos a esse chamado. 
Vellker – 17.01.08 – voltar para A_ÍNDICE GERAL 3