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Andando na chuva...

Ontem, um dia nublado. Mas mesmo assim decidi sair para minha caminhada do dia. Pensei se a chuva iria me pegar ou se conseguiria voltar a tempo. Passo acelerado, respiração forte e fui caminhando. Me lembro das palavras de Yukio Mishima narrando as sensações que tivera ao correr em um estádio, numa manhã de exercícios. Correr ainda não, um passo de cada vez, mesmo sob a chuva...
Sensações. Como a de Yukio Mishima, sentindo o vento frio na pele, mas uma alegria sem par ao correr quilômetro após quilômetro no velho estádio, sentindo mais vida do que frio no corpo. Minha sensação...a de me segurar numa corda, com as mãos bem apertadas, me puxando para cima, aos poucos sentindo mais força do que cansaço enquanto subo, em direção à luz clara, deixando uma escuridão sem fim para trás.
Olhava para o tempo, as nuvens cada vez mais carregadas, os carros passando e as primeiras gotas chegando. Tive a tentação de parar no ponto de ônibus, mas vi que era melhor seguir em frente. Sim, a chuva iria me pegar. Desde quando eu não decidia caminhas assim na chuva? Desde criança.
Caminho pela subida que me queima os pulmões, as pernas latejam. A chuva me pega, as roupas se molham, mas continuo. Vem uma sensação refrescante. Não há incômodo. Há uma sensação de comunhão com essa chuva. Pessoas me vêem espantadas de dentro dos carros. Não corro, não me abrigo. A chuva se torna meu abrigo. A chuva passa a ser parte da minha caminhada. Vejo pelos meus óculos a imagem de um mundo fragmentado pelas gotas de chuva batendo nas lentes.
Continuo andando acelerado, o passo firme o tempo contado para chegar em casa, a alegria de estar assim, na chuva e protegido pela chuva. Há dias de se correr da chuva. Há dias como esse, maravilhoso, se andar na chuva. Ela me beija o rosto, me molha as roupas, me refresca o corpo.
Chego em casa molhado, mas feliz.

Enquanto retiro as roupas e me seco, ando pela sala e paro na frente de um quadro. Sinto meu corpo bem, se fortalecendo, sinto vida fluindo dentro de mim. Me sinto feliz. Olho bem para o quadro. Dentro uma dedicatória, que meu irmão me mandou, quando atravessei um período difícil da vida. As palavras de incentivo, de ânimo. Então meu irmão já estava gravemente doente e não sabíamos. No final a frase...Sempre estarei ao seu lado!
Vem uma pequena chuva da alma, que me toca o coração, me molha os olhos...Lembro de quando ele esteve doente, com a vida fugindo de seu corpo a cada dia e me lembro de como estive do lado dele, em todos os momentos, até no momento da última prece. Fomos irmãos.
Olho para a chuva lá fora, parando, diminuindo até virar uma garoa suave e parar de vez. Enxugo os olhos.
Sim, depois da chuva, o sol...Mas sempre serei feliz ao caminhar na chuva pelas lembranças que traz. A caminhada, a roupa molhada, as gotas no rosto, a sensação de vida. Agora entendo melhor as sensações que aquele escritor descreveu de uma simples corrida na manhã.

Vejo a chuva no horizonte novamente. Mas ela prenuncia vida, avisa do sol chegando. Fico feliz por ter uma alma fértil para as sementes que ela rega.
Vellker – 26.11.07 – voltar para A_ÍNDICE GERAL 3
Dia de Finados, lembranças e esquecimentos...

Ontem, como todos aqueles que tem um ente querido morto, fui ao cemitério para levar nesse Dia de Finados, uma lembrança para eles. Independente das concepções religiosas, da crença ou da descrença, persiste a lembrança dos dias em que vivemos juntos, daqueles com quem convivi ainda como criança e depois como adulto.
Daqueles que me contaram histórias da vida e de suas vidas, que me ensinaram a descobrir o mundo, que me deram a mão me apoiando nos primeiros passos, que me ensinaram a fazer juízos, tudo enfim que pessoas mais velhas e mais experientes nos ensinam.
Antes de entrar no cemitério, deixei o vaso de flores no chão e peguei de uma pequena árvore, dois ramos floridos. Eu vinha com o vaso de flores nas mãos, pensando em que jamais haviam me esquecido. No fim da vida, em seus últimos dias, jamais os esqueci. Ao mesmo tempo em que caminhava nas pequenas passagens do cemitério, sabia que não ia deixar as flores com eles. E sabia também que meu pai e meu irmão teriam pensado da mesma forma que eu, se fosse eu que estivesse enterrado lá.
Pouco antes de sair de casa, minha mãe, depois de ter preparado o vaso, já cansada em sua idade, ainda me pediu uma coisa: que eu deixasse essas flores num túmulo ao lado, pobre, esquecido, marcado pelo tempo, que ela havia notado da última vez que em que fora lá. Talvez de alguém que morreu esquecido ou que não tivesse mais ninguém para um gesto de lembrança. Achei que era certo sim, um sentimento bonito e disse que faria isso.
Fui chegando nos túmulos e primeiro coloquei as flores da árvore no túmulo dos meus avós. Procurei relembrar suas imagens, eu ainda era criança quando morreram, mas pensei em todas as histórias que minha mãe me contou, de quando vieram para o Brasil, como imigrantes, procurando uma vida melhor e seu trabalho duro no sustento da família. De certa forma procurei pensar na viagem, na chegada, na vida de trabalho, nas suas esperança, em tudo. Com carinho deixei as flores ali.

Fui caminhando até o túmulo do meu pai e do meu irmão. Nos momentos finais da vida, quando mais precisavam de ajuda, eu não os esqueci. Relembro seus últimos olhares e meus olhos se molham um pouco. Não há arrependimento, nem mágoa. Apenas a dor dos momentos que passaram e a certeza que me consola o coração de que minha mão não faltou para ajudá-los quando mais precisaram. Ao mesmo tempo, relembro as histórias do meu pai, que também saiu cedo de sua casa, procurando uma vida melhor, premido pela pobreza. De certa forma, com as lembranças dos nossos parentes, revivemos seus passos, refazemos seus caminhos e vemos o ser humano, sempre em sua caminhada por uma vida melhor.
Depois de uma prece silenciosa, olhei para o túmulo que minha mãe havia falado e o vi, velho, rachado, esquecido mesmo. Acho que essa pessoa não tem mais ninguém para lhe prestar uma homenagem. Depositei ali o vaso de flores, não só em nome dessa pessoa, mas como uma homenagem a todos os esquecidos sepultados ali. A todos os que morreram esquecidos ou foram esquecidos. No túmulo do meu irmão e do meu pai deixei as flores que havia colhido ao entrar no cemitério. E me despedi e fui caminhando para a saída.
Gostava de conversar sobre política com eles. Ao caminhar fui pensando, como se pudesse conversar com eles, sobre os esquecidos dos dias de hoje, sobre as últimas novidades do que gostávamos de conversar. E sei que se revoltariam com as alegres conversas que os deputados tem feito sobre a continuação do mandato do presidente.
A podridão exposta dos três poderes constituídos no Brasil de hoje, que se tornaram poderes prostituídos. As manobras e fugas jurídicas de membros do legislativo e do judiciário, que enfiados nos piores crimes contra a nação, não só se saem bem com isso, como pelas leis que votaram para si mesmos, saem com uma gorda aposentadoria, enquanto vejo nas ruas pessoas suando sob um sol abrasador, ganhando sua vida corretamente, sem perspectivas, sem esperanças, esquecidos de tudo.
As filas sem fim em órgãos do governo, as pessoas morrendo em corredores de hospitais públicos, a justiça inalcançável ao mais humildes e ao mesmo tempo bem paga protetora dos mais ricos, em dinheiro e em más intenções. Vejo no trabalho árduo dessas pessoas no sol do dia a dia, sempre a procura de um caminho melhor na vida, sempre o caminhar com coragem pelo que é justo. E os vejo não só esquecidos, como humilhados por esse poder maior, quando o presidente deixa que falem em seu nome, não só de poderem votar uma continuação de seu mandato ou caso não possam, de sua mulher. Não são as vozes do povo que dizem isso, mas de um bando de asseclas e bajuladores, traidores da Nação.
Vejo essas pessoas que trabalham duramente, que procuram um futuro melhor para si mesmas e para seus filhos, esquecidas e traídas em sua luta e também tão esquecidas e machucadas quanto o velho túmulo onde coloquei as flores.

Vejo, usando a lembrança de um filme de faroeste que assisti há muito tempo, os três poderes do Brasil, que deveriam zelar pelo que é melhor e justo para o povo, sentados e debruçados sobre a velha lápide de um cemitério. Jaz alí, escarnecida, toda a esperança de um povo num governo correto e corajoso, que fizesse o melhor por todos nós e que acabaram de enterrar. Dizem as tradições religiosas que um dia todos os mortos hão de ressuscitar para o Juízo Final e que os justos serão conduzidos ao Paraíso.

No Brasil de hoje, onde se aproxima esse dia, os três poderes já tem lugar garantido no Inferno.
Vellker – 03.11.07 – voltar para A_ÍNDICE GERAL 3