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Sobre tropas e combatentes...

Tem sido justificada a repercussão do filme "Tropa de Elite" que trata da história do BOPE, Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Criado na década de 70, foi aprimorando seu sistema de treinamento e criando também táticas de combate que levaram especialistas internacionais a considerarem-no um dos melhores grupos de combate policial existentes no mundo.
Fica claro no filme e pelos relatos da vida real que a atuação do BOPE é feita muitas vezes com uma violência arrasadora. Levantam-se os grupos de direitos humanos em protesto contra tal ação. Sem dúvida isso abre uma discussão. Até que ponto uma sociedade deve aceitar uma extrema violência organizada contra grupos criminosos? Eu respondo: até o mesmo ponto em que os criminosos atacam essa sociedade com toda a violência que lhes permite impor o terror e submissão.
Choca essa constatação, mas é pensar o impensável como ele tem que ser pensado e visto, aliás, mesmo evitando pensar dessa forma, vemos o impensável aparecendo todos os dias nos noticiários da TV, isso quando ele não nos atinge de verdade.
Sem dúvida que os direitos humanos e a atuação comedida de uma força policial devem ser levadas em conta como padrão de conduta de tal grupo. Mas se os membros de grupos criminosos desconsideram isso quando atacam as pessoas, cometendo crimes de uma crueldade sem precedentes, igualmente devem ter como resposta o mesmo tipo de ataque, devem sofrer na pele a mesma crueldade com que atacam suas vítimas. Em certos momentos da vida de uma nação, olho por olho e dente por dente é a única atitude a se tomar. Não adianta dizer que assim ficaremos cegos e banguelas. Nossa sociedade está numa situação até pior do que essa, com milhares de vítimas executadas de forma cruel, porque isso era proveitoso aos criminosos.
Ou eles dão de ombros, porque não estão nem aí para os crimes que cometem ou contam com uma rede de advogados e de ONG’s abaixo de qualquer suspeita que estão mais para quadrilheiros do que para advogados e ativistas, porque decidiram faturar envolvendo-se com o crime ou então os criminosos, se forem presos, podem continuar comandando o crime de dentro dos presídios através de celulares. E porque fazem isso? Porque não acontece nada mesmo.
Ou alguém tem alguma dúvida de isso terminaria de uma vez por todas se o BOPE treinasse um destacamento só para cuidar dos presídios? Enquanto isso, continua o massacre das vítimas do crime organizado. Neste exato momento, quantas pessoas da nossa sociedade, seqüestradas há meses, não estarão sendo levadas de cativeiros para serem executadas, seja lá porque motivo for? Até agora, grupos conhecidos da sociedade brasileira tem se mostrado dóceis, submissos e intimidados, fazendo suas passeatas pela paz.Tanta docilidade e submissão não parece normal.
Que pessoas estejam intimidadas, até se entende. Mas muitas ONG’s e organizações a favor de ser da paz a qualquer preço ou de viva a praia a qualquer custo, mostram uma docilidade e uma submissão para lá de suspeitas. E o que ganharam com isso? A absoluta certeza dos criminosos de que elas estão com medo, de cabeça baixa e incapazes de reagirem, sem sequer terem a mínima coragem para pensar nisso. E o que é pior: expostas à ação dos criminosos até em suas casas, porque até mesmo concordaram com as campanhas de desarmamento. E agora, quem as ajuda quando os bandidos estão pondo a porta de suas casas abaixo a pontapés, para mais um rendoso seqüestro? Já se tornaram habituais os arrastões de 2 a 3 horas em prédios, com bandidos armados subindo andar por andar, roubando todos os moradores indefesos.
Alguns defensores dos direitos humanos dizem que uma reação assim nos tornaria iguais aos criminosos. De forma alguma. Se algum criminoso atira em nós e nós atiramos de volta, isso não nos torna criminosos como ele. Ou respondemos aos ataques da mesma forma com que são feitos ou nos tornaremos dia após dia, uma sociedade cada vez mais encurralada, intimidada e submissa a qualquer coisa que o crime organizado faça, queira ou exija da sociedade. Um exemplo: na época dos ataques do PCC em São Paulo em maio do ano passado, o medo tomou conta até de autoridades do judiciário, que passaram a ir trabalhar sem seus carros oficiais e sem as carteiras que os identificavam como autoridades. Por aí se vê a que ponto nossa sociedade se intimidou. O interessante é que no meio de tantos policiais mortos, até mesmo um bombeiro, não havia nenhuma vítima que pertencesse a ONG’s e organizações de direitos humanos. É suspeito? Parece muito.
O filme é um dos pouquíssimos que pode ser considerado filme na acepção do termo, desde que o cinema brasileiro efetivamente começou na década de 50. No máximo uns 7 podem ser classificados assim. Como todos os outros de grande impacto sobre o espectador, descreveu e de forma magistral o choque do crime com a sociedade. Críticos descreveram-no como hollywoodiano, com uso massivo de imagens que não dão tempo para o espectador pensar, de uma música vigorosa atrelada com a ação do filme. E o que tem de errado nisso? O filme é um primor de fotografia, som que nos coloca no meio da ação e com os momentos tensos dos personagens na vida diária, vivenciando seus problemas e fazendo análises da sociedade onde vivem. Acontece que os críticos de cinema no Brasil ainda estão na década de 60, no tempo da câmera de 8 mm, do falecido e mumificado Cinema Novo.
Pior ainda tem sido a hipocrisia de parte da classe média envolvida mesmo com os traficantes, como usuários de drogas, chegando nas chamadas bocas de fumo dos morros para comprar seu cigarro de maconha ou papelote de cocaína, que depois consomem numa festinha na faculdade ou em algum centro cultural, julgando-se na vanguarda dos tempos. Fica mais bonito dizer que é usuário, coitadinho, do que dizer que é office-boy de traficante. Claro, não consomem suas drogas nos pronto-socorros, onde chegam agonizando as vítimas de balas perdidas ou acertadas mesmo, disparadas pelos traficantes. É melhor o usuário fazer de conta que não tem nada a ver com isso e depois de participar de mais uma passeata pela paz ou em memória de mais algum amigo que ajudou a matar, ficar na praia, de olho no vendedor de mais uma dose.
No filme se destaca a figura do Capitão Nascimento. Sua fala marcante deixa uma observação ecoando em nossa lembrança: “É por isso que nesta cidade todo policial tem que escolher: ou se corrompe ou se omite. Ou vai para a guerra. Eu fui para a guerra”.
A maioria dos espectadores que assistiu o filme se identificou com esse personagem. Com a sua narrativa dos acontecimentos vividos por ele na época em que comandou um destacamento no BOPE. Ao mesmo tempo sensível para a desastrosa realidade social dos nossos dias, enojado com a hipocrisia de uma parte da classe média, inimigo jurado dos policiais e autoridades corruptas e inimigo de morte dos criminosos, esse personagem faz mais do que catalisar nossos sentimentos de revolta contra a situação que sofremos. Faz mesmo assomar em nós a plena convicção de que agiríamos da mesma forma, combatendo os criminosos de camiseta ou de colarinho branco, com todo o rigor que merecem. E nem por isso seríamos como eles. Seríamos apenas cidadãos, exercendo nosso direito de autodefesa. Alguém vê alguma coisa errada nisso?
E lembrando das palavras dele, vendo a decadência e corrupção que contaminaram completamente os três poderes neste Brasil, podemos falar como ele: ”É por isso que neste país todo cidadão tem que escolher: ou se corrompe ou se omite. Ou vai para a guerra”.
Se nós queremos nos considerar cidadãos decentes, é melhor irmos para a guerra.
Vellker - 18.10.07 - voltar para A_ÍNDICE GERAL 3
Coisas que os políticos, juizes e jornalistas esqueceram...

Passado um mês desde o último texto que coloquei neste espaço, a observação feita no dia a dia, da situação política e social, confirma a polarização que começa a se tornar nítida entre as pessoas.
Divide-se o país, uma divisão percebida nas pessoas, pelas opiniões e pelos grupos sociais de forma silenciosa, porém cada vez mais acentuada. Silenciosa por enquanto ainda.
Uma bem vinda divisão, como sempre o primeiro passo para uma tomada de consciência, que apesar do sorridente discurso das autoridades sobre os dias atuais, começa a posicionar cidadãos e grupos sociais num período que prenuncia mudanças sociais e políticas que trarão uma transformação profunda.
Os antigos grupos contestadores que berravam palavras de ordem e de investigação de qualquer coisa, desfraldando bandeiras vermelhas em qualquer esquina, de caras pintadas, hoje de bandeiras enroladas embaixo dos braços, perfilam-se junto dos seus chefes partidários, de mãos estendidas, na espera de uma indicação política para algum cargo público. Sem bandeiras e com cara de pau.
Sucedem-se no que ainda teimam em chamar de congresso nacional, os mais diversos escândalos, de conchavos e acertos de conveniência para salvar a pele do político chefe, que literalmente deu a esse congresso a inesquecível conotação de bordel, com seus encontros amorosos lá dentro, de tal forma que a criação do cargo de cafetina oficial passa a ser uma idéia nada desprezível pelos seus ocupantes. Ao menos tornaria as coisas mais claras. Ou mais abertas.
Nas câmaras estaduais e municipais igualmente reina o maior clima de festa com o dinheiro público e saque dos impostos pagos por um povo sobrecarregado por tantos tributos. Vemos estarrecidos nos noticiários da televisão, nos estados do norte as romarias de doentes, abandonados à própria sorte na porta dos hospitais públicos, coisa que ocorre também nos estados do sul.
Enquanto isso, nas mais altas cortes judiciárias, não faltam recursos para a criação de palácios e mais palácios da justiça ou de coisas assim pomposamente denominadas, ao custo de centenas de milhões de reais, enquanto o brasileiro, descobre que além da insegurança física, está perdido dentro do labirinto da insegurança jurídica.
Tiroteios com dezenas de mortos já são coisa comum no cotidiano de cidades como o Rio de Janeiro, lembrando cenas dos combates no Oriente Médio, esse pelo menos oficialmente em estado de guerra.
Ao mesmo tempo nunca foram tão marcantes a imagens de políticos sorridentes, em meio aos maiores atos de corrupção diariamente denunciados e mesmo essas denúncias sendo manipuladas pelos grandes órgãos de comunicação, que escolhem uma denúncia para atingir um desafeto e esquecem outras para poupar algum aliado político.
Nas ruas é cada vez mais perceptível o desgosto popular com tudo isso e nesse meio cresce essa divisão, essa polarização de opiniões políticas. E de posições também. Fica de forma marcante, o cidadão comum, a esperar por enquanto, ainda impotente para agir, uma mudança que ele percebe que começa tomar forma, não só em seu pensamento, mas também no pensamento de milhões de outros cidadãos como ele.
Enfim, desde 1985 cantando ao vento, às custas do povo brasileiro, fazendo-se de heróis de uma guerra que nunca combateram e autores de discursos que nunca proferiram, jornalistas, políticos. membros do judiciário e demais amigos do poder, esqueceram de tempos passados.
Há muito tempo atrás, uma divisão marcou profundamente a sociedade brasileira. O cenário não era muito diferente desse que temos hoje, mas os corruptos daquele tempo eram até mais escrupulosos e mais discretos do que os de hoje.
Enfim, hoje, embriagadas por uma sensação de poder que nunca tiveram, todas essas chamadas elites políticas acreditam que podem exibir tamanho desprezo e até mesmo falta de pudor frente ao sofrimento do povo brasileiro, simplesmente porque acham que controlam o poder para sempre.
Também pensavam isso em 1964, o presidente João Goulart e seus aliados, crentes no apoio popular que julgavam ter e no general Assis Brasil, que lhes garantiu o apoio do que chamava de dispositivo militar.
Depois, no exílio, se perguntavam o que, afinal, tinha dado errado?
Muitas vezes o passado é só um velho professor, que retorna para repassar com seu aluno as lições da última aula.
E para aplicar a prova final.

Linques a verificar:
Um velho escândalo que o congresso esqueceu
A assustadora corrupção de hoje, no judiciário e no legislativo
Um jornalista amargurado pressente as mudanças que virão
Vellker - 08.10.07 - voltar para A_ÍNDICE GERAL 3